DECISÃO DE CASAL - Eles não querem ter filhos
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2007
Elaine Souza<br>Especial para a FOLHA 
Famílias estão diminuindo: em média, são dois filhos por casal
Casar e ter filho(s) sempre foi o ciclo natural da maioria dos relacionamentos. Foi! O universo cultural brasileiro não é mais dos tempos em que quem não colocava descendentes no mundo chegava até a ser discriminado na sociedade.
Hoje, pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que o número de pessoas por família vem despencando no país. Em média, são menos de dois filhos por casal. A única certeza que se tem quanto à vontade de ter um rebento é como se faz. Depois disso, imperam dilemas do tipo: como criar um filho em um mundo tão violento? Vale a pena abrir mão da liberdade? Ter um ou dois? E assim vai...
No Brasil, embora nunca tenha sido feito um cálculo preciso do fenômeno, também há muitos casais que tomaram essa nem sempre fácil decisão. Exemplo claro são os empresários Aires Antônio, 46, e Ana Carla Ganem Antonio, 45. Juntos há 22 anos, o combinado era de, nos primeiros cinco anos sob o mesmo teto, trabalhar muito para adquirir uma certa estabilidade financeira. O receio pragmático de se firmar no trabalho passou e junto com ele a vontade de aumentar a família também.
Enxergamos o casamento de uma forma diferente, respeitamos a individualidade do outro, diz Aires. Ana, que nunca sonhou com a maternidade e confessa não levar o mínimo jeito com crianças, explica que a felicidade do casal está na maneira com que conduz a vida, sempre priorizando o trabalho, as viagens, participação em clubes sociais, esportes.
Não me sinto vazia, pelo contrário, sou muito feliz. Não sou egoísta como muitos podem estar pensando. Casais sem filhos são muito felizes!, conta ela. Aires e Ana tiveram uma infância saudável e cercada do amor dos pais. Não é da criação, portanto, que vem a determinação de não querer herdeiros. Não vejo como escolha a questão de ter filhos ou não. Na maioria das vezes acontece aquela coisa do escorregar, e filho não segura casamento. Ninguém é de ninguém. Eu e minha esposa quando casamos não tínhamos idéia de que iríamos nos dar tão bem a ponto de não querer ter filhos, fala o empresário.
Opção pela carreira
Alonso Sanches, 33, e a advogada Juliana Glade Ferracini Sanches, 32, estão casados há cinco anos. O labirinto de dúvidas e angústias, que chega a tirar o sono de muitos casais que optam por ter filho, nunca foi um contratempo na vida dos dois. Desde que o relacionamento começou a fluir e tudo indicava véu e grinalda, um ponto entre eles era comum: o de não ter um fruto em casa.
Sempre imaginamos uma família a dois. Somos perfeccionistas e não queremos abrir mão dos nossos compromissos sociais e profissionais. Para nós, essa é a vida perfeita, diz Juliana. Atualmente, os dois só se preocupam em estar casados e ter liberdade para viajar e planejar vôos mais arriscados nos negócios. A pressão familiar ou mesmo as brincadeiras dos amigos são comuns, mas, para eles, inofensivas. Os amigos sempre falam: mas vocês convivem tão bem, as crianças gostam de vocês. E sempre digo: não é que não goste de crianças, mas a questão é que nunca senti aquela coisa de ser mãe. E não sinto que isso possa mudar um dia, revela a advogada.
Não em tempo integral
Evandro Mourão, 37, personal trainer, e sua esposa, Jaqueline Negreti, 38, funcionária pública, vão logo avisando que gostam de criança. Mas não em tempo integral. Eles julgam possuir uma pequena cota de paternidade e maternidade. Mourão tem uma maneira conservadora de pensar e agir. Filho de pai militar, cresceu com base na educação judaica, tendo sempre muito respeito pelos pais e obediência a uma hierarquia.
Sempre soube que viemos a este mundo com várias funções, e uma delas é procriar. Se acontecesse de ter um filho, tudo bem. Pela razão entenderia, mas pelo coração, não. Meu trabalho está em primeiro lugar. Sinto que falto com atenção até com minha esposa e, certamente, faltaria tempo para um filho. Hoje também crianças e jovens não respeitam os limites, conta Mourão.
Para sua esposa, que desde os 17 anos já sabia que ter filho estava fora de cogitação, o fato da escolha também está diretamente ligado ao trabalho e ao lazer que ela adora aproveitar a dois. Egoísmo? Pode ser. Admito que não quero perder minha privacidade. E hoje também é muito difícil criar um filho. O mundo está violento, você educa e a tevê deseduca, a insegurança é grande demais. Também pode ser comodidade, individualidade e ponderação da nossa parte, sim!, relata Jaqueline.
Razões não faltam
Entre as razões mais comuns dos casais que não querem ter filhos, destacam-se o receio de não saber educar, o compromisso de longuíssimo prazo, preocupação com o lado financeiro, incertezas na duração do relacionamento, mundo violento, perda de privacidade etc.
Também há sempre o questionamento sobre o que farão sem filhos na velhice. As respostas dos nossos entrevistados têm sentido. Nenhum filho tem essa obrigação. Um dia, eles (os filhos) se casarão e formarão uma família. Quem tem filho pensando nisso é um absurdo. Hoje, com os muitos cuidados, pessoas de 60, 70 anos estão independentes. Se chegarmos a essa idade já não há mais tempo para se arrepender, pois curtimos muitas coisas boas, explicam Evandro e Jaqueline. (E.S.)
Procura por prevenção duradoura é crescente
A medicina está a favor de quem não quer ser mãe ou pai. Hoje, os métodos utilizados para deixar de lado a grande e permanente responsabilidade de se ter um filho, são diversos. E a procura por eles registra aumento.
A ginecologista e obstetra Priscila Garcia Figueiredo conta que a busca por opções que previnam a gravidez e, de preferência, não agridam o corpo das mulheres, vem crescendo. E isso, segundo ela, está ligado ao grau de vida das pessoas. Quanto maior o nível sócio-ecônomico-cultural, menos filhos. Essa é uma mentalidade que estamos pegando dos países modernos.
A médica também explica que, atualmente, existem muitas maneiras para evitar ou adiar uma gestação, e que, algumas delas, uma vez adotadas pela mulher é o caso do DIU (um dos mais utilizados) , tem efeito perdurável por até 10 anos. O dispositivo consiste de uma matriz de plástico em forma de T, cuja haste vertical contém um reservatório que libera o levonorgestrel de forma lenta e constante, desde a inserção, mantendo a liberação em nível eficaz por anos.
Elas escolhem esse método porque ele evita a menstruação, e também permite, caso a paciente volte atrás na decisão, tirá-lo, para que a mulher recupere sua fertilidade normal, explica Priscila. Os famosos e velhos anticoncepcionais são a opção de muitas mulheres, basta não esquecer o dia e horário de ingeri-los. Parte chata da escolha.
Por último, mas indiscutivelmente importante, vem a camisinha, que além de prevenir a gravidez, evita doenças como HPV e Aids. Para quem não quer viver entre fraldas e mamadeira, ficam as dicas. (E.S.)


