De repórter a
entregador, tudo
no mesmo dia
Quando a Folha Esportiva foi criada, os domingos viraram um sufoco. Um dia de 1972, março ou abril, saí de casa, na Vilinha da Folha, na Rua Riachuelo, às 8 horas da manhã e fui para a zona rural cobrir dois jogos. Almocei na Fazenda Ivo Leão e retornei para cobrir mais dois jogos na Vila Santa Terezinha. Por volta das 17 horas, estava na Redação escrevendo.
Mais ou menos às 20 horas, o Nelson Severino recebeu aviso da oficina, de que poucas pessoas estavam trabalhando. Acabei minhas matérias e tive que descer para a revisão. Já na Oficina, o Véio Toco (Carlos) me pediu ajuda na paginação e acabei fechando pelo menos umas três páginas. Fiquei até mais tarde para ver os flans e só por volta das 8 horas, já de segunda-feira, exatas 24 horas após deixar minha casa, é que consegui retornar.
Preparava-me para deitar quando alguém bateu à minha porta. Era o motorista da linha de Paranavaí. Ele disse que o Milanez queria me ver, com urgência. No caminho ele me contou que o seu João ia pedir meu carro emprestado, porque o que ele ia usar para fazer a linha estava quebrado. Logo que cheguei, o seu João foi logo falando que queria meu carro, um fusca 67, motor 1.300. O carro estava sem freio e fiquei com receio de dá-lo ao motorista. Resultado: acabei indo com ele fazer a linha.Josoé de CarvalhoSufocoIsnard: jogo do Santos, mas pelo teletipo
Eram cerca de 12 ou 13 horas, quando voltei a Londrina e fui para casa, não mais só para dormir, mas almoçar e descansar. Lá pelas 18 horas, estava pronto outra vez na Redação. Naquele dia, fiz o jornal de ponta a ponta.
Nesses mais de 37 anos que estou na Folha, vi todas as transformações que o jornal passou. Senti, de pertinho, todas as dificuldades. Não foram poucos os que diziam que a Folha ‘‘era um milagre que se repetia a cada dia’’. E era mesmo. Quem não conheceu as condições para se colocar o jornal nas bancas, jamais pode imaginar esse milagre.
Cansei de sair da oficina por volta das 6 horas da manhã, sem saber se a rotativa ia ter condição de imprimir o jornal. Várias vezes fui chamado às pressas em casa, para ir atrás de alguém (ah, eu me fazia, às vezes, de motorista da Kombi que ficava à noite para atender Redação e Oficina). Era um sufoco inacreditável. Algo fantástico. Quando a rotativa começava a rodar, era um tremendo alívio para todos. Mas quando a dobradeira resolvia enguiçar, dava dó de ver o pequenino Birolinha tentar colocá-la em condições de uso.
Da máquina linotipo ao computador. Do clichê ao fotolito. Do telégrafo às notícias no seu terminal. Isso passando pelo teletipo e pelo telex, até o fax. Uma revolução inacreditável e até difícil de compreender. Lembro que certa vez precisava dar o resultado de um jogo do Santos, em Santiago do Chile, mas nenhuma rádio transmitia. Claro que TV não existia. Mas a UPI salvou a lavoura. E pelo teletipo acompanhei, minuto a minuto, todo o jogo, pois a agência descrevia o lance da partida. Foi outro milagre na Folha. Pois ela era, na década de 60, ‘‘o milagre que se repetia a cada dia’’.
- ISNARD CORDEIRO é editor de Esportes

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