Aos 5 anos, Rita Izabel Vaz aprendeu a fazer crochê. Os primeiros ensinamentos nessa arte de pequenos pontos precisos e uniformes, a menina aprendeu com a mãe, na cidade de Três Pontas, Sul de Minas Gerais. Do crochê para a costura foi um passo. Não poderia esperar outra coisa de uma garota do interior mineiro, nascida em uma família em que a habilidade manual é uma das características marcantes. O pai é marceneiro, a avó costurava, as tias e irmãs bordam.
Um joguinho de toalhinhas de crochê rosa e verde, a primeira peça produzida por Rita, enfeita hoje um dos quadros da artesã expostos no saguão do Fórum da Justiça do Trabalho, em Curitiba. Quem passar pelo Fórum vai se encantar logo de chegada com os trabalhos de cores fortes e vibrantes da moça. Duas técnicas, a costura e o crochê, predominam na exposição de Rita Vaz, que faz parte de um programa chamado Prata da Casa, em que a veia artística dos funcionários do judiciário é valorizada. Ela é graduada em Psicologia e trabalha como Técnica Judiciária.
Mas não é qualquer costura ou crochê. Nos quadros e móbiles, os principais personagens são pequenos e simpáticos bonequinhos e bonequinhas de pano, costurados pacientemente. A técnica é inspirada no artesanato nordestino. Cada boneca mede aproximadamente 10 cm, com o rosto bordado a mão e os cabelos - todos crespos - feitos com linha de tricô desmanchado.
Ela conta que começou a fazer os quadros com seus famosos bonequinhos (sim, porque eles já se tornaram conhecidos em Curitiba) há pouco mais de 10 anos. Ela viu o modelo enfeitando a parede de uma sapataria, aqui mesmo na capital paranaense. A peça havia sido trazida do Nordeste.
De lá para cá, Rita Vaz aperfeiçoou a técnica, misturou estilos e material. ''Não gosto de fazer peça repetida'', avisa. Essa característica fica bem evidente nas criações em que os bonecos realmente parecem únicos com suas roupas de tecidos coloridos, enfeitados com lantejoulas, miçangas, fuxicos e crochê.
Os bonequinhos já foram vendidos durante muito tempo na feira de artesanato do Lago da Ordem e anos atrás, no Natal, um grande banco encomendou centenas de bonecos para presentear aos clientes. Para atender a demanda, Rita contou com a ajuda de uma sobrinha, a quem ensinou a fazer os adoráveis menininhos e menininhas.
A artesã tem paixão pelo trabalho. Na sua casa, uma grande mesa está sempre coberta de retalhos, linhas, botões, agulhas. Cerca de uma hora por dia é dedicada ao artesanato. ''É uma distração. Estou sempre fazendo alguma coisa'', comenta. ''Meus filhos (ela tem dois meninos) dizem que eu não posso ver um armarinho (loja de linhas, botões e outros produtos para costura) que já vou entrando.'' Ela faz coleção de tecidos. Tem retalhos de padronagens diferentes não só do Brasil, mas de outros países, como a África.
Enquanto conversava com a reportagem da FOLHA, no saguão do Fórum, alguns colegas da artista paravam para cumprimentá-la. A exposição realmente encanta pessoas de todas as idades. Dos 18 quadros expostos, alguns já foram vendidos. Um deles, que tem uma das primeiras peças que ela fez quando ainda era criança, foi vendido por R$ 250.
Em família
O artesanato ainda é uma das fontes de renda de Rita Vaz, mas hoje o dinheiro ganho com os trabalhos manuais não é tão significativo quanto foi há anos, quando a moça fazia faculdade de Psicologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. ''Como tinha aulas de manhã e à tarde, não poderia ter um emprego fixo. Então fazia vestidos de crochê para uma loja de São Paulo'', conta.
Antes de se mudar para Curitiba, ela veio com parte da família para Paranavaí. Nas férias da faculdade, costumava voltar para Minas Gerais, onde uma irmã ainda mora, e passava o tempo fazendo crochê para vender. ''Eu fazia 10 vestidos por férias'', comenta.
Alguns dos 29 colares expostos no Fórum foram feitos ''a seis mãos'' - confeccionados junto com as irmãs (uma de Minas e outra de Campinas-SP). ''É uma criação coletiva. Nós vamos trocando peças, misturando'', explica. Assim, mesmo longe das irmãs, o crochê funciona como um elo com a família. Um elemento aglutinador não só para relembrar as raízes, mas para manter vivas as tradições.

Serviço
- A exposição dos trabalhos de Rita Vaz pode ser visitada até o dia 21 de novembro, no Fórum da Justiça do Trabalho, na Rua Vicente Machado, 400, Centro.

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