De perto ninguém é normal
Kraw PenasSer loira, lanchar na Confeitaria Schaffer e fazer compras: traços tipicamente curitibanosDe perto, nenhuma pessoa é normal, como diria Caetano Velozo, brinca o escritor Cristóvão Tezza, morador em Curitiba há 38 anos. Da mesma forma, nenhuma cidade é normal, afirma. Ele discorda de que Curitiba seja mais normal do que as outras. O que acontece é que o inconsciente do brasileiro busca uma cidade bucólica, tranquila, na beira de um rio, e Curitiba se encaixou neste imaginário, acredita.
Como observador atento do que se passa nas ruas curitibanas, o escritor arrisca um palpite: acho que este conceito de normalidade está mais na cabeça das pessoas do que na realidade, diz. Como é que vai existir uma cidade no Brasil que não seja brasileira?, questiona.
Ele acha que as tradições como noivar, casar de branco ou debutar, por exemplo, que foram praticamente erradicadas nos grandes centros e ainda são mantidas em Curitiba, são típicas de cidades pequenas. Não podemos esquecer que temos apenas 1,5 milhão de habitantes, o equivalente a um bairro do Rio ou São Paulo.
Mauro FrassonAnfrísio Siqueira, um dos fundadores e o presidente da Boca Maldita, um dos mais tradicionais pontos de encontro de Curitiba
Criador de vários personagens curitibanos conhecidos nacionalmente, como o Trappo, Tezza afirma que nunca pensou em ser um retratista da cidade. Sempre usei Curitiba apenas como pano de fundo das minhas histórias, garante.
Um diferencial incontestável, na opinião de Tezza, é o temperamento dos curitibanos, mais frios e fechados do que a média dos brasileiros. Parece que aqui a solidão pesa mais, afirma. Segundo ele, este astral propicia a elaboração da boa literatura. Curitiba é indiscutivelmente uma cidade literária, conclui, falando na sala de seu apartamento que fica a poucas quadras da casa de Dalton Trevisan.





