De massagens a filhotes
Foi há três anos que Laurinda Santana, 75, foi observando, chegando e enturmando-se no Clube de Troca Amizade. O grupo, criado em 2004, é formado por moradores do Caiuá, na Cidade Industrial de Curitiba, e realiza duas reuniões mensais, uma delas na Paróquia Santa Edwiges. No começo da fria manhã de sábado, a turma chega sem fazer muito estardalhaço. Cada um carrega consigo objetos que trouxe de casa. A proposta é levar coisas que, ainda que não sejam mais úteis para o dono, estejam em bom estado e possam servir aos outros. Em tese, ao menos uma delas deve ter sido produzida pela própria pessoa.
Laurinda vem acompanhada de um cuque feito em casa e cortado em 20 pedaços. Um pouco mais tarde, venderia cada um deles por meio pinhão. A doméstica Sônia Santos de Souza, 36, trouxe duas sacolas com verduras e é a mais jovem entre os moradores presentes. Antes da troca, porém, o grupo tem assuntos a debater. Eles comemoram o resultado do último baile da comunidade, que arrecadou R$ 395. Aí, com esse dinheiro, compramos alimentos e dividimos tudo por igual. Às vezes, oito ou dez trabalham enquanto 15 ou 20 não fazem nada, mas tudo bem, comenta Laurinda um tanto resignada.
A assistente social Gisele Carneiro é a animadora do grupo. Ela é acompanhada por duas estudantes, que são estagiárias do Cefuria e participam dos encontros. No início da reunião, pouco depois das nove horas, Gisele inicia a mística, um momento de reflexão que antecede às trocas. Sobre o chão, uma série de elementos é disposta. Cada uma das 13 pessoas que formam um círculo comenta com qual deles se identifica ou sobre o qual gostaria de falar. Há uma caixa com cédulas de pinhão, homenzinhos de papel e flores de artesanato produzidas por uma das participantes.
Às 10h09, iniciam-se as trocas. Em uma mesa, são colocados os alimentos bolos doces e salgados, verduras, refrigerante e café com leite. Nos bancos, objetos variados. Cada um administra a venda do que trouxe de casa. Laurinda comprou uma pulseira (dois pinhões), uma blusa (também dois), sacola de verduras (um) e uma conserva de beterrabas (um). Ao fim, todos entregam as suas cédulas de Pinhão para uma pessoa do grupo que organiza o livro ata, em que fica registrado o crédito de cada um. Maria Joana Borba, 71, é quem tem o maior saldo: 49 pinhões. Às vezes, quando vou ver já nem tem mais nada para comprar. Mas estou contente assim. Gosto de vender. E estou ficando rica, brinca.
Fabiana da Luz, 26, estudante de Serviço Social, se manteve na posição de menor saldo, com o mesmo valor em conta do último encontro: dois pinhões. Eu troco demais. Afinal de contas, o objetivo não é acumular pinhões. Gisele, a animadora do grupo, faz o fechamento, pedindo para que cada um comente sobre o o encontro. Ela diz que é difícil construir um sistema como contraponto ao capitalismo, mas acredita ser possível. Quanto às ofertas mais peculiares que já viu em Clubes de Troca, ela cita duas: um sujeito que oferecia massagens nas costas e outro que levou diversos filhotinhos de cachorro para trocar. (R.U.)





