De lanchinho a almoço executivo
A maioria das lanchonetes funciona das 10 horas à uma da manhã e cobra entre R$ 10 e R$ 12 de consumação. O "almoço executivo" e a saída das aulas noturnas são os momentos de pico. No fim de semana, o movimento é ainda mais intenso.
No Capão Raso, próximo a uma faculdade, um drive-in chama a atenção por conta dos já citados interfones. Mas o luxo para por aí. Trata-se de um lugar escuro e apertado, onde apenas um funcionário cuida de tudo.
Paulo (outro nome fictício) frita porções congeladas, bate polpas de frutas no liquidificador, serve os clientes e acerta a conta. Ainda assim, o faz-tudo se considera apenas um garçom, que trabalha num misto de "lanchonete com motel", como ele mesmo define.
Há um ano e meio no ramo, Paulo já trabalhou em outro serv-car, no Capão da Imbuia. Diz que nunca viu nada de anormal em suas jornadas noturnas, a não ser uma cliente excessivamente ruidosa. "A mulher fazia tanto barulho que eu até sabia que era ela que estava no carro", lembra.
Histórias como essa - e muitas outras impublicáveis - acontecem todos os dias. Antônio, inclusive, pretende escrever um livro de "causos" quando se aposentar. Um de seus preferidos dá conta de duas mulheres que resolveram fazer um lanchinho no meio da tarde. Foram seguidas pelo marido de uma delas, que queria invadir o box a qualquer custo.
O empresário conseguiu segurar o homem e foi chamá-las. Eram patroa e empregada, e estavam completamente nuas no automóvel. Mas não é que a esposa conseguiu virar o jogo?
"Ela saiu furiosa do carro, apontando o dedo na cara do sujeito. Disse que estava fazendo um acerto de cheques com a funcionária, pois na empresa não era seguro", conta. Resumo da ópera: o marido, arrependido, abraçou a mulher e pediu desculpas a todos. Tolinho...
Casos de violência, no entanto, são raros. Pelo menos é o que dizem os proprietários. "Só me lembro de um, presenciado pela minha filha", garante Antônio.
De acordo com ele, a confusão começou quando, por algum motivo, um travesti e seu cliente começaram a se agredir na saída do drive-in. Quando um automóvel se aproximou, o transformista fingiu ser mulher e pediu socorro, aos berros, alegando que estava grávida. "Uns caras desceram do carro e começaram a bater no sujeito", conclui.
Algumas passagens do gênero já viraram verdadeiras lendas urbanas. Como a da árvore que tombou sobre um carro no Verde Batel, um dos mais tradicionais serv-cars da cidade (leia mais no quadro ao lado).
"Aconteceu realmente. Pedimos autorização à prefeitura para cortar um cedro que estava quase caindo. Não conseguimos e, durante um temporal, a árvore caiu mesmo, em cima de uma brasília. O dono do carro, que estava com a amante, ficou desesperado. O que ele iria dizer em casa?", diverte-se o proprietário, Roberto (mais um pseudônimo).
Mas, afinal, como surgiu o nome serv-car, tão curitibano? Segundo Roberto, o termo foi criado por ele, para diferenciar sua lanchonete dos drive-ins que exibiam filmes. Antônio, por sua vez, não sabe dizer quem inventou, apenas a "etimologia". "Drive-in vem do inglês, enquanto serv-car é português", explica, sem mistérios. (O.G.)





