A proposta é atraente: conhecer o mundo a bordo de um navio, sem despesas, recebendo um salário em troca de algumas horas de trabalho e com a chance de conviver com pessoas de nacionalidades diversas. Dos milhares de tripulantes dos cruzeiros que saem do Porto de Santos, em São Paulo, com destino a cidades brasileiras e estrangeiras muitos são curitibanos que encontraram nas viagens marítimas uma forma de cruzar fronteiras geográficas e culturais.
  André Ferreira Feiges, de 25 anos, já trabalhou como garçom em quatro cruzeiros em períodos que duraram de três a oito meses. Ele conta que sempre quis fazer intercâmbio mas não tinha dinheiro, e conseguiu o que desejava quando aceitou o trabalho em um navio. ‘‘Em vez de fazer intercâmbio pagando fui fazer recebendo’’, conta.
  A oportunidade que se mostra atraente num primeiro momento por causa da remuneração também exige sacrifícios. André diz que muitos desistem em função da pesada carga de trabalho. ‘‘Você está disponível 100% do tempo. Tem horário de descanso mas mesmo assim está à disposição’’, explica. ‘‘Você é submetido a um oficial superior num tratamento hierárquico. Não se discute ordem. Primeiro você executa e depois sugere a mudança’’,
completa André.
  Flávia Fernanda Siqueira de Oliveira, de 32 anos, que se prepara para embarcar pela segunda vez como tripulante, no próximo dia 18, também diz que o tratamento dos chefes é duro. ‘‘Meu primeiro cruzeiro fiz como passageira e é o paraíso, é tudo
na sua mão. Como tripulante o primeiro mês é terrível. Tem muitas nacionalidades que você não sabe se estão brigando com você ou falando normal. Depois você acaba vendo que é o jeitão deles’’, observa.
  Para André o período de adaptação também foi desgastante. ‘‘O difícil é o corpo acostumar. No primeiro contrato pensei em desistir umas duas ou três vezes’’, lembra. O mesmo aconteceu com Flávia. ‘‘Tinha dia que eu pensava: será que vou embora ou vou trabalhar hoje? Imagina trabalhar sete dias por semana durante seis meses?’’, justifica. No caso de desistência antes do fim do contrato o tripulante arca com a despesa
da passagem de volta.
  O esforço físico e a pressão
são compensados pela chance
de conhecer lugares distantes e pessoas novas, e por uma nova visão de mundo que a experiência proporciona, segundo Flávia. ‘‘A gente vê que o mundo é muito maior que a cidade onde a gente mora. Quero ir para vários lugares. É como uma pessoa do interior que vem para a capital e na volta não
se adapta mais. A mesma coisa acontece com quem faz uma viagem internacional’’, avalia.
‘‘Eu dizia que não ia voltar porque
é difícil e eu estou voltando.’’
  No caso de André as viagens também trouxeram mudanças. ‘‘Entrei falando um inglês básico e depois de oito meses falava inglês e espanhol fluente. Você ainda sai do trabalho com outro nível de seriedade. E tem passageiros
com quem eu me comunico até hoje por e-mail’’, afirma. A relação entre os tripulantes é menos amigável, conta Flávia. ‘‘Boas amizades são muito poucas.
Seria propício mas não é isso
que acontece não’’, alerta.
  Quanto a relacionamentos entre casais a coisa muda e é levada mais a sério. ‘‘Lá as pessoas
estão abertas a isso. Para nós (brasileiros) ficar é normal mas para o estrangeiro se ele está com você ali, amanhã ele é seu namorado’’, explica Flávia, que conheceu o namorado jamaicano durante o cruzeiro que fez como tripulante.

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