O corpo de uma menina de 10 anos estendido no chão da avenida, após ser atropelada no horário de almoço, ao sair da escola. A cena é chocante e, mesmo depois de muitos anos, ainda está viva na memória da aposentada Nilza Carneiro, moradora há 40 anos do bairro Xaxim, de Curitiba. ''Foi muito traumatizante, os pais dos alunos da escola passaram a ficar muito preocupados e quem podia vinha buscar o filho na porta'', relembra. O perigo era justificado: a rua Francisco Derosso, em frente à Escola Municipal Francisco Derosso, tem uma velocidade máxima permitida de 40 km/h, mas os carros chegavam a ultrapassar a marca dos 100 km/h. ''Era muito arriscado atravessar essa rua, os motoristas não respeitavam e corriam mesmo. Tinha pai que se desesperava'', recorda o vendedor Alfredo de Souza.
Uma solução para o problema começou a nascer em 1988, quando uma empresa de Colombo, na região metropolitana, procurou o Instituto de Planejamento e Pesquisa Urbana de Curitiba (Ippuc) para discutir a possibilidade de desenvolver um equipamento eletrônico de controle de velocidade. Concretizada a parceria, foi criada a primeira lombada eletrônica do Brasil, com o Ippuc desenvolvendo o design da novidade e a empresa cuidando da tecnologia que seria utlizada.
A novidade começou a funcionar em agosto de 1992, em frente à escola, ponto que registrava uma média de 10 atropelamentos por ano. ''Notamos que houve uma redução drástica dos acidentes e o número de atropelamentos zerou, sendo observada não só uma redução da velocidade no ponto em que ela está instalada, mas também 1 km antes e 1 km depois'', revela o Chefe de Controle de Tráfego de Curitiba, Rogério Falcão, que integrou a equipe que ajudou a implantar a criação.
Com o sucesso da empreitada, uma reunião com o BPtran mapeou os pontos mais críticos da cidade, onde foram instalados outros aparelhos. ''Ela é utilizada para locais específicos, como uma via de 60 km/h e que você precisa baixar em um determinado ponto para 40 km/h, na frente de uma escola ou próximo a uma curva, por exemplo. Diferente do radar, com o qual você deseja manter uma velocidade constante em toda a extensão da via'', explica Falcão.
O garçom Claudinei Nardino está há quase 30 anos no Xaxim. E ficou surpreso ao saber que a lombada, que há quase 15 anos passou a fazer parte da rotina dele, foi a primeira a ser implantada no mundo. ''Não tinha idéia, mas foi uma invenção muito boa, a solução ideal. É por causa dela que eu fico tranquilo quando minha filha sai de casa e vai para a escola'', atesta.
Os motoristas que passam pelo local também defendem a idéia. ''Só não gosta quem não respeita as leis de trânsito'', resume o motorista de caminhão Nelson Rale. Para o taxista Valter Apolinário, a lombada traz mais benefícios do que transtornos. ''Falam que é só para arrecadar dinheiro, mas discordo. Para o pedestre é uma segurança a mais, uma coisa importante. E para o motorista também, afinal, se você encontrar uma pessoa distraída atravessando a rua dá tempo de parar com carro, já que você está com a velocidade reduzida'', explica.
Na contramão das opiniões está o vendedor Sidnei Resende. ''Faz 15 anos que essa lombada está aí? Imagina o tanto que a prefeitura lucrou com isso'', protesta. Quando perguntado se o equipamento não significa segurança para os pedestres, Resende pondera. ''Até traz sim, mas acho que não deveria multar, deveria ser mais educativo'', argumenta.

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