Cruzando estatísticas e avaliações do Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Militar com a população de Londrina chega-se a uma conclusão aparentemente óbvia, mas de causas e proporções igualmente surpreendentes sobre o trânsito de Londrina: os motociclistas, que sempre carregaram o estigma da irresponsabilidade no tráfego, começam hoje a pagar o preço do estereótipo, muitas vezes, sem ter culpa pelo caráter que lhes foi atribuído.
Sabe-se que avaliar o grau de responsabilidade dos motociclistas é uma questão subjetiva, ao mesmo tempo em que alguns fatos, de cunho matemático, são inquestionáveis. Eles sofrem a maior quantidade de acidentes, pagam as consequências mais graves por isso, são ''contratados'' para a prática de crimes sem saber mas respondem por isso e, na grande maioria dos casos, passam por estes problemas enquanto estão trabalhando.
O emprego com o uso de motocicletas transformou-se numa opção contra a crise no mercado de trabalho há pelo menos 10 anos, quando serviços como o de mototáxi se popularizaram no País. Nesta década, as motos tomaram conta do trânsito por apresentarem baixo custo de aquisição, economia de combustível e grande agilidade no tráfego. ''É possível comprar uma moto de baixa cilindrada hoje pagando R$ 100 mensais'', destaca a presidente da Associação de Mototáxi e Moto-Entrega Faixa Azul Norte do Paraná, Edmara Adolfo de Oliveira.
As consequências destas características podem ser facilmente constatadas em qualquer grande cidade do Brasil. De acordo com estatísticas do Departamento de Trânsito do Estado do Paraná (Detran), enquanto a frota total de veículos em Londrina cresceu 16% entre 2002 e 2005, a quantidade de motos aumentou em 33%. Do total de 204 mil veículos registrados na cidade, 40 mil são motos.
Neste momento os riscos a que estão sujeitos os motociclistas começam a aparecer. Apesar de responderem por menos de 1/5 do total de veículos na cidade, as motos estão envolvidas em mais de 1/3 dos acidentes. ''Contabilizamos cerca de 3,5 mil acidentes desde janeiro deste ano. Deste total, as motos estiveram envolvidas em 1,2 mil'', afirma o comandante da Companhia de Trânsito de Londrina (Ciatran), tenente Paulo Siloto.
Aos desavisados, a primeira impressão que estes números podem passar é a de que a culpa pela desproporção é dos próprios motociclistas, já que a imprudência é a característica mais facilmente associada a estas pessoas, como mostra uma enquete realizada pela Folha. O preconceito é desfeito pelo delegado de trânsito de Londrina, Aparecido Antônio Gregório. ''Em pelo menos 90% das ocorrências com motos os envolvidos estavam cumprindo o serviço'', afirma, ressaltando a pressão a que estão sujeitos por parte dos empregadores e dos próprios clientes.
''Sabemos que eles correm e se aproveitam da agilidade das motos, muitas vezes abusivamente, porque dependem da produtividade para manter o serviço. De qualquer forma, em 30% do total de casos, os motociclistas são perfeitas vítimas, pois não tinham responsabilidade nenhuma sobre o acidente'', completa o delegado.
Somado a este fator está a gravidade dos acidentes a que os motociclistas estão sujeitos. ''Como costumamos dizer, a testa é o pára-choque do motociclista'', diz o comandante operacional da Companhia de Bombeiros de Londrina, capitão Ricardo Jammes Teixeira. Responsável pelo Serviço Integrado de Atendimento Emergencial (Siate), o corpo de bombeiros é, talvez, a entidade que mais conheça a realidade destes acidentes. E com este respaldo, o comandante afirma: ''Os usuários de motocicletas são, na maioria das vezes, as vítimas mais graves em um acidente. Estão sujeitas, quase que em todos os casos, a sequelas graves ou irreparáveis, quando não à morte'', explica.
Parte dos problemas pode ser amenizado com simples medidas, como à que foi tomada recentemente pelo comando do 5º Batalhão de Polícia Militar de Londrina (5º BPM). Segundo a presidente da associação dos profissionais do ramo, um curso de direção defensiva oferecido pela PM reduziu sensivelmente o número de acidentes com motos na cidade. A prevenção para este tipo de ocorrência, no entanto, restringe-se a medidas educativas, já que a possibilidade de proteger a moto instrumento de trabalho com um seguro é financeiramente inviável, quando não é impossível.
Quando efetuam o cálculo para determinar o valor de um seguro, as empresas levam em consideração fatores como riscos de acidentes e assaltos. A partir desta informação, pode-se deduzir onde chega o preço da apólice para uma moto. ''Os valores são tão altos que compensa mais o motociclista comprar uma nova moto'', afirma Edmara. ''Este tipo de serviço nem era disponível no Estado há cerca de dois anos. Hoje já oferecemos, mas lembro-me de ter feito somente duas apólices nos últimos 24 meses'', afirma a corretora Rosângela Aparecida Alves. A maior parte das seguradoras, porém, simplesmente se recusa a fazer seguro de motos, e a dificuldade para fechar um seguro de vida também é grande.

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