Eles vieram em 24 pessoas, em 2001. Todos com os mesmos sonhos e objetivos: fugir da guerra civil que atormentou Angola por mais de 40 anos, aprender uma nova cultura e trocar experiências, completar algum curso em uma universidade para voltar e ajudar os ''irmãos'' que não puderam vir para o Brasil no programa de intercâmbio. Seis anos depois, sete, todos portadores de deficiência visual, continuam firme nos planos que traçaram e hoje são conhecidos como Os Cantores de Angola.
''Eu gostava de cantar e comecei a tocar contrabaixo há quatro anos. Também sei tocar bateria'', listou Prudêncio Jefferson Tumbica, de 17 anos, que deixou a família e cinco irmãos em Angola para estudar aqui. ''A adaptação foi um pouco difícil por causa do frio, mas tivemos muito apoio dos amigos'', destaca. Das 24 crianças e adolescentes que vieram pelo programa de bolsa de estudos José Eduardo dos Santos, de Luanda, capital angolana, seis voltaram para o país africano, sete ficaram em Curitiba e o restante vive em Florianópolis.
Todos os outros seis integrantes da banda também enfrentaram outras dificuldades, além da deficiência visual, como vencer as barreiras culturais, a saudade da família, entre outras coisas. ''Quando era pequeno tive paralisia infantil. Hoje eu canto, sei tocar teclado'', diz Francisco Kata Benguela, de 19 anos, enquanto os outros companheiros se preparavam para se apresentar para a reportagem. Multiinstrumentalistas, quando perguntados se todos tocavam percussão, responderam que ''todos os africanos já nascem com a percussão no sangue'', por isso a razão de não dizerem que também tocam o instrumento.
Segundo os Cantores de Angola, o Brasil é um país muito parecido com os países da África, principalmente quando se fala da alegria do povo e a relação com a música. ''No Brasil, a gente gosta bastante de samba, funk, pagode, gostamos de tudo que tocam por aqui. Lá em Angola os ritmos mais populares são o 'kuduro', que tem uma batida eletrônica, e o 'zouk', que é mais lento. Tem também a 'tarraxinha', pra dançar, como se dança no forró'', explicam Prudêncio e Wilson Antonio Kapingana Andre Madeira Ganga, de 20 anos, que toca teclado e canta no grupo.
Completam a banda Maurício ''Dumbo'' Tchope, de 17 anos; Rui Kelson, de 13 anos; Ariclenes Macissa, de 15 anos, e Jacob Cachenga, de 17 anos.
O resultado desse intercâmbio é um belo coral com teclado e percussão. Enquanto cantam, os sete cegos parecem enxergar a emoção de quem ouve canções tão envolventes, em vozes que transmitem um interessante misto de dor, alegria e esperança.
Regidos pela maestina Patrícia Fucks, os Cantores de Angola conseguiram o primeiro lugar no júri popular do 1º Festival de Música Judaica de São Paulo, com a música ''Esperança'', composição de Wilson. Com o sucesso do primeiro CD, já pensam no segundo, enquanto estudam, ensaiam e curtem a música. ''É uma alegria muito grande saber que as pessoas gostam do que a gente faz'', comenta Wilson.

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