O primeiro contato do dirigente da Associação Espiritualista Mensageiros de Aruanda (Assema), Marco Boeing, com a umbanda foi aos sete anos de idade. Uma doença grave e o diagnóstico médico assustador de uma possível paralisia fizeram sua mãe o levar a um terreiro de um parente distante, já como último recurso, em busca de cura. Ele conta que foi atendido por um ‘‘preto velho’’ (entidade presente naquele espaço religioso), que o benzeu e deu a ele uma ‘‘garrafada’’ – preparado de ervas – para tomar.
  Boeing ficou curado e chegou, até mesmo, a jogar futebol profissional anos mais tarde. Mas, como a família era de orientação católica, logo que conseguiu se curar, afastou-se do terreiro. Isso até os 13 anos, quando decidiu, por conta própria, procurar o mesmo local em que havia sido levado pela mãe e que era dirigido por ‘‘vó Isolina’’. ‘‘Fiquei 16 anos naquele terreiro, por um bom tempo sem saber direito o que estava fazendo’’, contou.
  Já em sintonia com a religião, Boeing freqüentou, depois, uma outra casa, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, por quatro anos, antes de abrir seu próprio terreiro, nos fundos de uma casa velha de madeira, no Bairro Alto. Hoje, 30 pessoas fazem parte de sua ‘‘corrente’’ e outras 40 participam das ‘‘giras’’, na assistência.
  Boeing acredita que o crescimento da umbanda em Curitiba está ligado à necessidade das pessoas em se apegar a uma religião ‘‘sincera’’. ‘‘Na umbanda, muitas vezes, você escuta o que não quer. Ao mesmo tempo é uma religião alegre, não existe dogma, segredo. Aqui tudo é explicado’’, afirmou ele. O lado negativo dessa expansão, ponderou Boeing, foi o surgimento do que ele chamou de ‘‘mercadores da f钒, estimulados pela ‘‘visão deturpada de que a umbanda é lugar onde se faz milagres’’. ‘‘O foco da umbanda é o crescimento espiritual’’, enfatizou Boeing, que não gosta de ser chamado de pai-de-santo. ‘‘Acho que os títulos mexem com a vaidade das pessoas e eu me coloco como igual aqui’’, afirmou.
  O pai-de-santo Clodoaldo da Silva acredita que nasceu com o dom de incorporar espíritos – base da umbanda. ‘‘Foi uma herança, um dom. Tenho 37 anos e quando eu tinha 14 anos, em um momento de precisão da minha irmã, recebi meu primeiro guia, o cacique Pena Branca, que é, até hoje, meu mentor espiritual’’, relembrou ele. Desde então, ele passou a ‘‘atender’’ os vizinhos, que buscavam aconselhamento espiritual, na casa em que morava, no Conjunto Mercúrio, no bairro Cajuru.
  Hoje, Silva e a mulher, Elaine Cristina Fonseca da Silva, também mãe-de-santo, mantêm o Templo de Umbanda Mensageiros de Aruanda, no Bairro Novo. Recebem de 50 a 80 pessoas por semana. Segundo o pai-de-santo, a procura por auxílio financeiro é mais comum entre as pessoas de classes sociais mais altas. Os mais carentes, segundo ele, buscam conforto espiritual, auxílio psicológico e nas questões amorosas.
  O Templo, contou Silva, também desenvolve um trabalho social. Adotou uma creche para a qual doa alimentos arrecadados nas festas promovidas pelo terreiro. (A.L.)

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