Mene Rhombea, um peixe italiano do Eoceno Médio, marcado sob o número 139, é dos mais jovens na coleção Paleontológica dos Borgomanero. "Só tem 50 milhões de anos", define Ragnhild Borgomanero, 75, olhando para o objeto na quarta das seis cristaleiras que tem na sala de casa. Ela e o falecido Guido chegaram à residência na primavera de 1980, quando decidiram ficar em definitivo em Curitiba. No muro da entrada, o nome Vila Ametista, formado por pedras sem valor, dá a dica de que a casa é um museu particular. "As que deixaram. Cansei de repor, já levaram muitas", recorda.
Se as pedras de âmbar, com mosquitos, já levaram a comparações ao livro e filme "Jurassic Park", a peça mais antiga não é nenhuma delas. Com 1,2 bilhão de anos, essa alcunha cabe a uma peça com algas fossilizadas encontrada em Almirante Tamandaré. O paleontólogo Alexander Kellner, 47, considera a coleção de fósseis a melhor da América Latina ainda nas mãos de particulares. "Em termos de espécies. Tomara que um dia seja depositada em uma instituição pública." A recomendação ele já deu à família, que conhece desde 1985. Kellner assina a coluna mensal Caçadores de Fósseis, na revista Ciência Hoje On-Line. Em 1989, apresentou junto a Guido um trabalho sobre a coleção em um congresso de paleontologia.
Em relação à sua opinião quanto ao destino da coleção, ele é sincero. "Sou suspeito para falar. Para mim, o melhor local é o Museu Nacional (do Rio de Janeiro, onde trabalha)", afirma. "O nosso problema é encontrar fundos para adquirir a coleção." Kellner lembra que no caso da coleção de gemas, que Guido identificava como a mais completa da América Latina, ela poderia, sim, ser vendida, mas o mesmo não é verdadeiro para a de fósseis, os quais são considerados bens da união.
A família já recebeu algumas ofertas pela coleção de gemas - repleta de itens interessantes como um raro diamante octaedro e uma belíssima rubelita. Mas não tem disposição de vendê-la a particulares, uma vez que Guido deixou expressa a vontade de que as peças ficassem no Brasil. "A alma do meu pai está ali", resume o filho, Alessandro, 40. "Não teria coragem de deixar nas mãos de uma instituição pública. Acredito muito no trabalho do Alexander. Mas não sei o que poderia acontecer no dia em que trocar a direção e ele sair." Outro fator que pode pesar na decisão, a qual Alessandro assegura não é para agora, é o interesse que o pequeno Leonardo, seis anos, tem mostrado pelas peças. "O avô faleceu quando ele tinha dois anos. A coleção pode ser uma forma de ele conhecê-lo melhor."

Memória
Ragnhild tem ocupado boa parte de suas horas com a digitalização da memória da família. Os VHS viraram DVD no gravador que ela instalou na tevê da sala, organizou as fotografias e segue transformado em arquivos digitais os textos escritos a máquina por Guido. Tecnológica, ouve os concertos que gravou do filho em seu Ipod quando passeia no parque e já escolheu pela Internet uma câmera com HD de 60 gigas para gravar as futuras apresentações. Vai efetuar a compra na viagem de visita aos parentes que vivem em Nova Iorque.
"Minha mãe teve a grandeza de aprender e se apaixonar pelos ideais que o meu pai tinha", comenta Alessandro. "Eu sou obra disso. Foi uma vida tão interessante que não senti falta do meu trabalho. Cresci com isso, compartilhando tudo", explica Ragnhild. Ela frequenta concertos - diverte-se ao comentar que as pessoas que assistem à música erudita em Curitiba não vão ao teatro e vice-versa -, mas os dias de ir às sessões nas salas escuras ficaram para trás. "Não gosto de ir ao cinema. Lá sinto efetivamente a falta de Guido. Só pelo toque na pele, na mão, nos comunicávamos e já sabíamos se gostávamos ou não do filme."

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