Reprodução/Museu Histórico de CambéChegada de imigrantes de Dantzig, em maio de 1932. A foto foi feita na frente da casa de Franz Bloch, que ficava na esquina das ruas Belo Horizonte e Equador A vida não andava boa na Europa, nos anos 30. Apesar de ser uma cidade-Estado livre e porto de acesso do País ao Mar Báltico, Dantzig não ficava imune ao recesso econômico e ao desemprego impostos pelas dívidas acumuladas com a 1ª Guerra Mundial na Europa e pelos reflexos da quebra da Bolsa de Nova York, nos EUA, em 1929. Conta-se que os moradores tinham que levar uma carroça de dinheiro à padaria para comprar pão, porque a inflação era extraordinária.
Para tentar amenizar a situação, o Senado de Dantzig - órgão que representava o governo máximo da cidade - decidiu instituir o seguro-desemprego. Mas isso era um paliativo. A situação continuava caótica. Então, uma insistente propaganda feita pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), sobre novas oportunidades do outro lado do mundo, levou o Senado a incentivar a imigração. Uma lei adiantou o salário-desemprego correspondente a um ano para quem quisesse se aventurar na América, especificamente no Brasil, Norte do Paraná. Começava a nascer a colonização de Nova Dantzig, hoje Cambé.
César Cortez, diretor do Museu Histórico de Cambé, e Eduardo Roberto Pavinato, historiador e funcionário do Museu, contam que o governo polonês, para viabilizar a idéia, estimulou a formação de uma cooperativa e de um fundo, composto pelo dinheiro do seguro-desemprego dos aventureiros. Mas os danziguenses não tiveram sorte na nomeação do diretor da futura colônia no Brasil, que acabou lhes dando um golpe.
Recursos juntados, pequenas áreas de terras compradas no mapa, malas feitas. Tudo pronto para o embarque. Saíram de Dantzig 32 pessoas, que embarcaram depois no Porto de Hamburgo, na Alemanha. Entre elas estava o diretor da colônia nomeado, Franz Bloch, que embarcava com a mulher e duas filhas chefiando o grupo. Conta a história que Bloch não resistiu quando o navio fez uma escala no já famoso balneário de La Coru¤a, na Espanha: desembarcou ali mesmo com a família, decidiu entrar em férias por conta do grupo, e depois de se divertir algum tempo alugou dois táxis - uma para a família, outro para a bagagem - para alcançar, por terra, o navio em Lisboa. Em La Coru¤a ele havia deixado boa parte do dinheiro do seguro-desemprego dos compatriotas colonizadores.
Sem saber do golpe de Franz Bloch, os 32 danziguenses chegaram ao Brasil pelo Porto de Santos em 25 de dezembro de 1931. No dia 31, eles já estavam no hotel da Companhia de Terras, em Londrina; e dia 1º de janeiro de 1932, alguns deles foram caminhando até a nova colônia - a uns 12 quilômetros - para conhecer os terrenos que haviam adquirido e tomar posse das propriedades.
Sobrevivência‘‘Entre os danziguenses que chegavam estavam alfaiates, comerciantes, músicos, policiais, funcionários públicos’’, relata Eduardo Pavinato. Menos agricultores. Para começar a vida na nova colônia era preciso, em primeiro lugar, derrubar a mata, trabalho difícil mesmo para quem conhecia os instrumentos de trabalho da zona rural. Esta primeira dificuldade não foi suficiente para o grupo desistir da empreitada, embora muitos nem tivessem como voltar para a cidade natal mesmo que quisessem.
No contrato com a Companhia de Terras dos ingleses (na verdade, uma empresa colonizadora de britânicos), constava que a empresa garantiria a sobrevivência dos imigrantes por nove meses. Mas isso não ocorreu, porque o dinheiro acabou. Além das dificuldades financeiras, os danziguenses não conseguiam se adaptar à comida e ao clima da região, sem contar que tinham uma formação cultural sólida e na nova colônia não havia nada, só mato. ‘‘Muitas crianças e jovens trouxeram até roupa para dançar bal钒, ressalta Sérgio Cortez.
Quem podia voltar para Dantzig, depois que a família mandava a passagem para o retorno, não perdeu a chance. Os outros ficaram, enfrentaram as adversidades, trouxeram os familiares que tinham ficado na Europa e prosperaram. Mas não na colônia.

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