Curitiba é conhecida pela diversidade de povos que ajudaram a construí-la. Mas a capital paranaense destaca-se ainda mais por reunir descendentes dessas diversas etnias que aqui ainda preservam a tradição de seus pais e avós em clubes, sociedades, associações e, principalmente, em grupos folclóricos. Muitos começam a participar ainda na infância, outros se reconhecem na tradição depois de adultos e há também aqueles que juntam-se a eles encantados com a beleza de uma cultura diferente.
  Doralice Hayashi, de 52 anos, a Dora, diretora do departamento de odori (dança japonesa) da Associação Cultural e Beneficente Nipo-brasileira de Curitiba, começou a dançar há 10 anos. Primeiro, levou a filha para mostrar-lhe um pouco da cultura dos antepassados. A filha acabou não ficando no grupo por muito tempo, mas Dora continuou. O Grupo Folclórico da Associação Nipo-brasileira é um dos mais antigos de Curitiba e participa desde a primeira edição do Festival de Etnias, promovido pela Associação Inter-étnica do Paraná há 46 anos, no Teatro Guaíra. Além da dança, Dora conta que passou a entender mais sobre a cultura japonesa como um todo. ‘‘Aprendi muita coisa. Antes eu não falava quase nada em japonês, agora estou fluente’’, comemora.
  Tieko Imai Yamada, de 60 anos, só começou a dançar quando os filhos já haviam crescido e descobriu o quanto conhecer a cultura de origem era importante. Ela diz que quando era mais nova considerava-se totalmente brasileira mas com o tempo isso foi mudando e a dança ajudou a reatar o vínculo com as tradições do Japão. ‘‘Quando você fica mais velha quer saber mais da cultura japonesa, conviver mais com as pessoas da mesma descendência. Chega uma hora que não tem jeito, é o sangue’’, observa.
  A coreógrafa Hanayagui Ryutita mora em São Paulo e vem a Curitiba todo mês só para ensaiar o grupo. Ela diz que ensina com prazer porque os curitibanos valorizam e mantêm a cultura também entre os jovens. ‘‘A cultura japonesa está desaparecendo. O único lugar que dá valor e consegue manter é Curitiba’’, afirma.
  Na comunidade grega da Capital, a cultura de origem também é ensinada desde a infância. ‘‘Danço desde que comecei a andar. Nasci ouvindo música grega e meus avós falando grego. A gente vai crescendo com isso e não tem como escapar’’, conta Mariana Frantzezos Kotzias, de 19 anos, ensaiadora do Folclore Grego Neoléa do Paraná.
  O primo dela, Teodoro Smyrliadis Frantzezos, de 22, diz que tinha vergonha de falar para os colegas de escola sobre a dança mas com o tempo começou a sentir-se mais à vontade. ‘‘Ninguém fazia coisas diferentes e quando eu tinha uns 12 anos era bem complicado de falar. Já na faculdade o pessoal perguntava, queriam participar das festas. Agora é tranqüilo’’, explica.
  Integrante do Grupo Folclórico Germânico do Clube Concórdia há 27 anos, Carlos Hauer Amazonas de Almeida, de 44 anos, acha importante poder estudar uma cultura. ‘‘É interessante dançar uma coisa que dançavam há 2 mil anos, como a ‘fackeltanz’ (dança das tochas). É interessante saber que passou pela vida de tantas pessoas’’, justifica. O Grupo do Clube Concórdia completa 46 anos em outubro e foi o primeiro a dançar na Oktoberfest de Blumenau, em 1984, quando a cidade catarinense ainda não tinha seu próprio grupo folclórico.
  Os curitibanos investem na pesquisa coreográfica e na fidelidade à tradição alemã em todos os detalhes. Os tecidos, botões, meias e lenços são trazidos da Alemanha para a confecção dos trajes. ‘‘Não se encontram essas coisas aqui’’, justifica a coordenadora geral, Gisele Duarte Doetzer, de 31 anos. O grupo está cadastrado na Associação Cultural de Gramado (RS), centro de referência para o folclore alemão, como o mais antigo dessa etnia no Brasil. Para Almeida, a Capital cultiva uma família folclórica. ‘‘Curitiba nesse ponto é bem rica. Cada etnia influenciou com alguma coisa’’, observa.

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