O Fundo Municipal de Cultura dá, mais uma vez, as suas caras. O patrocínio direto, sem intermédio de leis de renúncia fiscal, tem o resultado de seis curtas-metragens, aprovados em edital, exibidos na tela da Cinemateca hoje e amanhã. Cinco deles são trabalhos de realizadores iniciantes, em que cada proponente recebeu R$ 10 mil para desenvolver um curta em suporte digital.
"Hoje, um ano depois, R$ 10 mil para fazer o filme que a gente fez é pouco", lembra o diretor e produtor de "Caleidoscópio", Gustavo Ribas, 23 anos. "É um desafio muito bom e para quem está começando é ideal." O edital também contempla projetos em longa-metragem, para profissionais experientes, caso de "Morgue Story", que estreou em dezembro, e já faz sucesso em festivais de cinema.
Os curtas em questão buscarão trilhar caminho semelhante. Gustavo aguarda a estreia, e a reação do público, para inscrever o filme em festivais. Ao lado do codiretor Murilo Wesolowicz, 23, também publicitário, tinha realizado outros projetos durante os tempos de faculdade. Mas "Caleidoscópio" é o primeiro em que assumiu também a produção, e no qual recebeu incentivo para a realização.
O curta começa em clima de suspense, com o protagonista, um garoto de 11 anos, em uma floresta, onde, com uma lanterna em mãos, encontra uma casa aparentemente abandonada. A gravação, com dois dias de duração madrugada adentro, foi feita na residência de um dos membros da equipe. A redução de custos no número de diárias e até mesmo a utilização de uma única locação facilitaram a realização do filme com apenas R$ 10 mil -em editais para profissionais, o orçamento varia entre R$ 40 mil e R$ 80 mil.
"É um edital muito legal, que ajuda a formar o diretor e produtor", opina Murilo Wesolowicz. "É uma base de trabalho de como funciona esse modo de produção que é fazer cinema", diz. "E serve também para entender a burocracia que tem nesse meio."
"Sob a luz da vela", que, tal como "Caleidoscópio", será exibido hoje, também trabalha com o universo infantil. "Fala de uma criança que passa o tempo com a avó que tem uma vela que nunca apaga", comenta a diretora, Karina de Souza, 29. Graduanda em cinema pelo CineTv, Karina se inspirou, em parte, na relação com as suas avós. As influências passam pelo diretor mexicano Alfonso Cuarón, de "Filhos da esperança", mas tem no filme "Jardim Secreto", de 1993, sua referência maior.
Karina diz que não foi nada fácil, mas que gostou muito de trabalhar com atores -a protagonista tinha 6 anos na época das filmagens. Ela não aguardou a estreia oficial para mandar o filme para festivais - "Sob a luz da vela" foi exibido na mostra paralela do Miau, em Goiás, e ruma agora para um festival em Florianópolis e outro, de filmes brasileiros, na Holanda. Karina pretende voltar a trabalhar com crianças em seus próximos trabalhos.
Se os dois filmes citados retratam a imaginação infantil, "Balada da Cruz Machado", com exibição na sexta-feira, está bastante longe disso. Baseado no poema de mesmo nome, de Rodrigo Madeira, tem citação de Charles Baudelaire grafitada em uma cena ("tem piedade satã desta longa miséria") e, tal como explica a sinopse, é "um mergulho em uma rua de não ir a parte alguma". "Não é muito agradável para se assistir e nem era para ser", define o diretor, Terence Keller, 31, formado em direito e especialista em cinema pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP).
O curta retrata a questão do crack sob o ponto de vista do usuário. A produção, gravada com o apoio dos comerciantes locais, que cederam seus espaços como locação, percorre a rua símbolo do tráfico e prostituição no centro de Curitiba. "Nesse sentido, acredito que o filme está defasado", afirma o diretor. "Depois da reforma da Tiradentes, o tráfico foi pulverizado pelo Centro."
Uma vez que nos filmes só podem aparecer as logos da prefeitura -Lei Municipal de Incentivo à Cultura e Fundação Cultural de Curitiba-, a solução encontrada pela produção dos curtas foi criar um site, www.canaletadigital.com.br, em que são citados os apoiadores.
É o caso da casa de sopas Acrótona, que alimentou parte da equipe de filmagem de "Balada..." ao lado do bar Gato Preto. O orçamento estourou e chegou perto dos R$ 15 mil, obrigando o diretor a tirar dinheiro do próprio bolso. Terence acredita que o reconhecimento em festivais -já enviou para quatro, três deles no Paraná- pode facilitar o ingresso do filme na televisão.

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