Depois de sete anos fechada, a casa simples situada na Vila Brasil (área central de Londrina) ganhou sons diferentes nas últimas semanas. Três vezes por dia o seu dono, o ex-atleta e mestre internacional de karatê Norio Haritani, de 59 anos, senta em postura ereta em frente a um altar e, com uma espécie de terço entre as mãos, entoa orações que nos remetem ao ambiente único dos templos budistas. O canto com voz grave e palavras ininteligíveis aos leigos é um misto de devoção e respeito.

Haritani chegou do Japão no início do mês, depois de formar-se como monge budista, seguindo os princípios preconizados por Siddartha Gautama (século VI a.C), o Buda. Desde então, está ocupando a casa construída ao lado da Associação Londrinense de Karatê (ALK), que ele fundou há 35 anos. Na última segunda-feira, o monge embarcou para São Paulo, para acertar detalhes de uma nova viagem ao Japão, no mês de maio. Lá, vai fazer uma espécie de ''doutorado'', que lhe dará condições de assumir um templo no Brasil. Só depois desta viagem à terra natal Haritani terá definido, pelos dirigentes em São Paulo, seu destino no Brasil ou mesmo em algum outro país da América do Sul. ''Meu desejo é continuar em Londrina e morrer nesta terra roxa. Gosto de tudo aqui, mas a decisão não depende de mim'', afirma.

Este não é o único sonho de Haritani. Ainda demonstrando certa dificuldade em relembrar algumas expressões em português, ele conta como e por que nasceu a idéia de se tornar um guia espiritual. ''Fui para o Japão para fazer um curso de aperfeiçoamento da caligrafia japonesa, mas não deu muito certo. Como já estava lá, resolvi fazer alguma coisa que pudesse trazer para o Brasil. Pensei muito e achei que a filosofia budista poderia ajudar nosso país.''

Ele argumenta que o budismo chegou ao Paraná com os primeiros imigrantes, mas que, ao longo dos anos, ficou praticamente restrito à colônia japonesa. ''Quero tentar transmitir a filosofia para mais brasileiros'', revela, lembrando que o pensamento básico do budismo é o pensamento coletivo. ''Para o budista, o importante é o crescer junto; não adianta só um ficar feliz. Buda nasceu como um príncipe, num castelo, mas um dia, passeando fora dele, viu que ao seu redor tinha muito sofrimento e resolveu fazer algo para que todos tivessem felicidade.''

A convicção de que a filosofia oriental poderia ser útil ao Brasil, país que o recebeu 39 anos atrás, fez com que o ex-atleta não medisse esforços. No primeiro ano no Japão, um obstinado operário acordava todos os dias às 4h30 para ter tempo de estudar até as 5h30, quando então saía de casa para enfrentar a desgastante rotina imposta pelo emprego em uma indústria química. No segundo ano, conseguiu se mudar para um lugar mais perto do emprego, que não o obrigava a perder uma hora dentro de um trem. Com isso podia levantar às 5h30, fazer os estudos matinais e na sequência ir para o emprego.

Foram quatro anos para terminar o curso, e mais um ano de dedicação à filosofia para se tornar um monge. Longe da família e dos amigos que deixara em Londrina, Haritani enfrentou uma diversidade de provações. Uma delas, lembra, foi a dor física: ''Fazia as orações ajoelhado, e muitas vezes mal conseguia me levantar, de tanta dor''.

Tanta força interior já havia sido lapidada durante os muitos anos de dedicação ao karatê, assim como o respeito à vida de cada indivíduo. Mas a fé, garante, mudou muito sua visão de mundo. ''Aquele que tem fé passa a não julgar tanto os outros, a não dizer o que é certo e o que é errado. Descobre, também, que não existe uma pessoa totalmente ruim e nem uma pessoa totalmente boa. Todos temos defeitos'', ensina.

O monge revela ainda que começou a se interessar pelo budismo aos 45 anos. Até esta idade, conta que passou por muitos riscos, que poderiam tê-lo levado à morte. O fato de ter sobrevivido a todos eles fez Haritani acreditar que algo, ou alguém, o estava deixando viver. ''Em determinado momento, tudo o que acreditava na vida se encaixou na filosofia budista'', resume.

Enquanto morava no Japão, a mulher de Haritani faleceu. Os filhos seguem cada um seu caminho um deles está no Japão. O que o mestre internacional de karatê quer agora, é poder cumprir seu destino e, quem sabe, ensinar o brasileiro a ser menos individualista. Sobre a vida que escolheu, ele acrescenta: ''Um monge tem uma responsabilidade muito grande em suas ações, no falar às pessoas, por isso tem que pensar mais antes de abrir a boca. Uma palavra pode tanto dar ânimo como matar uma pessoa''.

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