Maria Fernanda Paes Verdasca, 20 anos, começou a ler ''O Estado de Paranoia'' e perdeu a respiração. O autor do livro, Tiago Santos Lima, pouco mais velho - tem 22 -, é seu namorado há dois anos e uns poucos meses. Maria Fernada Terra, um dos personagens principais do romance, a representa. ''Eu ria de nervoso'', diz. ''Não tenho como reclamar, ele construiu a personagem muito bem. Era eu mesma.''
No volume de mais de trezentas páginas, a ser publicado pela carioca Multifoco, o autor não faz apenas um retrato de sua geração, mas também um inusitado relato da cidade, que ganha o apelido de CWB, título original do romance. Enquanto Paraná aparece como Paranoia, alguns personagens curitibanos têm seus nomes sutilmente modificados, como os políticos Roberto Regalão, Capitão Richa e Jaime Monjaimo. ''É algo bem bobo, como fazem nos gibis da Turma da Mônica quando trocam duas letras de uma marca famosa'', explica o autor.
Depois de abandonar a faculdade de Letras, Tiago segue no estudo de Direito na instituição que ele cita no livro como a Poderosa Universidade Cwbense (PUC). Ainda que afirme tratar de ficção, por momentos seu estilo beira o jornalístico, tanto na relação com a cidade quanto na construção dos personagens. ''Eu não sei se me divertia mais nas partes em que eu aparecia ou nas em que estavam os meus amigos'', conta a namorada, que aguarda a versão editada do romance para uma leitura do começo ao fim.
A personagem que a representa aparece logo nas primeiras linhas. ''Na madrugada de um domingo frio, direto de um sonho em que se achava meio sentada, meio flutuando sobre troncos de araucária numa floresta, a julgar pelas aparências, em processo de derrocada, Maria Fernanda Terra foi subitamente transportada ao interior de um quarto atravessado por raios amarelos, vibrações sísmicas e um ou outro tic-tac do seu relógio de pulso...''.
''O Estado de Paranoia'' está divido em oito capítulos e foi escrito entre julho de 2008 e março deste ano. O último deles, ''A Lemniscata'', no laptop de Tiago no Café Zau, no Juvevê. ''Ele sempre usou o café de ponto de encontro da turma. Vem bastante aqui e fica sempre lendo muito, quietinho'', conta Luciano Soares Zaina, 48, o dono do estabelecimento. Ele descobriu a existência do livro há pouco tempo e leu uma primeira versão, também disponibilizada pelo autor na Internet. ''É um observador'', define. ''Gostei muito. Uma escrita ágil, moderna. Dá para comparar com Nick Hornby ou Lourenço Mutarelli'', diz.
O café, que também é personagem do livro - veja box nesta página com alguns dos lugares da cidade citados -, será palco do lançamento do romance em Curitiba, o que deve acontecer entre julho e agosto segundo a editora. Tiago entrou em contato com a Multifoco através da Internet e teve um retorno bastante rápido. ''Nosso projeto é permitir que autores como ele - talentosos, mas ainda desconhecidos do grande público - consigam publicar suas obras sem ter que se submeter a arcar com os custos de publicação'', explica Raphael Santos, 29, diretor de marketing da editora, que trabalha com pequenas edições, sob demanda, e também publica nomes mais conhecidos.
Em cerca de uma semana, por e-mail, Tiago recebeu a confirmação de havia interesse em seu livro. Por correio, chegou o contrato, no qual assinou com a editora por dois anos. Questionado pela FOLHA em relação à qualidade da obra do autor curitibano, o diretor de marketing da empresa afirma que não é comum ver uma narrativa de fôlego em um jovem na faixa dos 20 anos. ''Entretanto, antes de ser um fato isolado, acredito que a obra de Tiago seja sintoma de algo maior. A despeito de tudo o que comumente se diz sobre a crise do livro, o que o dia-a-dia nos faz perceber é que há ainda uma quantidade muito grande de jovens que encontram no ato de escrever a expressão mais adequada de suas inquietações, sentimentos ou reflexões'', diz. ''Alguns, como o Tiago, conseguem levar isso ao status de obra de arte.''
Putz, sou eu
''Quando comecei a ler, fiquei com aquela sensação de putz, sou eu'', comenta Álvaro Antonio, 22, amigo do escritor e representado no livro pelo personagem Antonio da Luz. ''Mas sou eu para ele e para mais ninguém'', completa. Estudante de Letras e amigo de Tiago desde os 16 anos, acompanha seus escritos desde então e reconhece que o amigo escreve bastante.
No www.the1969.blogger.com, o leitor pode conhecer alguns dos contos do escritor. O blog é um projeto em que Tiago se propôs a escrever 1969 textos, o que espera alcançar lá pelos 40 anos de idade. Por enquanto, postou 168 vezes. ''O livro trata da minha cidade, da cidade do Tiago e de sua relação com os personagens. Não sei como o leitor vai ler esse livro.''
A também estudante de Letras Luciana Kimi Iwamamoto, 22, virou Luciana Kubo. No livro, ela ajuda o personagem de Maria, discute sobre a constituição dos Estados Unidos e, perto do fim, não consegue atender um telefonema do diabo em pessoa por estar inconsciente. ''É interessante, criativo. Achei bem divertido'', diz. Luciana acredita que vai ser engraçado ver as reações das pessoas ao lerem o livro.
A pedido da FOLHA, o escritor curitibano Luiz Felipe Leprevost, 30, autor de ''Inverno dentro dos tímpanos'', da Kafka Edições, leu o romance e escreveu um comentário, reproduzido nesta página. ''Ele tem um olhar de cronista para o seu tempo e território. Me identifiquei muito em diversos momentos'', diz. ''Acho que não tem ninguém dessa galera que escreva tão bem quanto ele.'' Leprevost, que já chamou Curitiba de Cingélida em seu universo literário, avisa: Tiago pode ter dores de cabeça por relacionar a história com personagens reais. ''Uma galera vai ficar chateada com ele. Isso já aconteceu comigo.''
Influências
Ainda que busque características de personagens em seus conhecidos, Tiago reconhece que o seu trabalho está mais ligado à ficção e que misturou referências ao formatar os personagens - alguns deles levam traços do próprio escritor. ''Numa palavra, não rolou compor um personagem pra cada pessoa que eu conheço (isso seria trabalho de uma vida, e no final seria a vida, e não um romance), então a solução encontrada foi dispersar traços de várias pessoas por vários personagens diferentes'', diz.
O escritor cita um conto do argentino Jorge Luis Borges, uma de suas referências, em que um rei pede um mapa tão detalhado que o produto resultante é do tamanho exato do reino. O romance tem uma clara conversa com a literatura mais pop - Pop, por sinal, é o apelido de um dos personagens. Tiago conta que sua diversão sempre foi ligada à literatura e acredita que teve liberdade maior ao escrever o romance por não depender da escrita para o seu sustento.
Leu Nick Hornby, entre muitos outros, na adolescência. Porém, cita o estadunidense Thomas Pynchon como sua principal referência, sobretudo na estrutura dos capítulos de ''V.''. Em um post na Internet, escreveu: ''O Pynchon é um autor que me pegou de jeito, na verdade; tudo o que eu posso esperar com este romance é não ser chamado de impostor, que é o que eu sinto, dependendo do dia.'' As referências ainda vão do Novo Jornalismo de Tom Wolfe, a Kafka, Donald Barthelme, chegando à música - e a epígrafe do livro, um trecho de Jimmy Renda-se, de Tom Zé, deixado de lado na versão final do volume.
Se o escritor apresenta uma postura crítica em relação à cidade, a primeira epígrafe do livro - que deverá vir sem uma frase de apresentação na versão impressa - era do poeta português Fernando Pessoa. ''O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.''
''O Estado de Paranoia'' será o segundo livro publicado pelo autor. Ele escreveu ''O monolito'', de contos, editado pela gaúcha Editora Plus, que distribui seus volumes exclusivamente na Internet. No momento, Tiago escreve seu segundo romance, ainda sem título, em que vai ambientar em Curitiba o Pirate Bay, famoso servidor de troca de arquivos instalado em um ônibus.

No livro

Conheça alguns lugares, instituições e personagens citados ou renomeados no romance:
A Pamphylia
Bom Jesus
Café Zau
Capitão Richa
Cartoon Vídeo
Celin
FAP
Jaime Monjaimo
Motorräd
O Estado de Paranoia
Passeio Público
Piada Ambígua®
Poderosa Universidade Cwbense
Roberto Regalão
Sindicato dos Agentes Secretos
UFPR

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