A maior dificuldade dos empresários em adotarem ações que resultem na redução da emissão de gases que promovem o efeito estufa é o custo das técnicas disponíveis atualmente. Mas para reduzir esses custos, o primeiro passo para as empresas começarem a desenvolver políticas que possam significar no futuro um diferencial competitivo é fazer o inventário de emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa). "No inventário, uma empresa pode fazer um balanço de tudo o que ela gera de emissões de gases de efeito estufa e em quais atividades", explica Cleverson Vitorio Andreoli, palestrante do EncontrosFolha, que será realizado nesta sexta-feira (28). "Você nunca vai conseguir fazer gestão de nada se você não tiver medidas, indicadores e metas."

A segunda etapa é elaborar os indicadores de intensidade carbônica, que indicam quantos quilos de CO2 a empresa gera para produzir um quilo, uma tonelada ou uma unidade de produto. A partir dos indicadores é que se começam a propor medidas focadas principalmente nas atividades que têm as maiores quantidades de emissão de GEE, geralmente associadas ao consumo energético, seja para a manutenção de caldeiras ou para o transporte da produção, por exemplo.

O Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica) é um programa nacional que financia as atividades sustentáveis. Os empresários que substituírem equipamentos antigos por modelos energeticamente mais eficientes podem ter acesso a um financiamento com boas condições de pagamento que pode ser quitado em um prazo rápido e, a partir de então, o investimento se transforma em lucro e diferencial competitivo.

"É muito provável que a partir do Protocolo de Paris o comércio internacional comece a exigir a apresentação do inventário de emissões para saber se os consumidores estão comprando um produto de uma empresa carbono-intensiva ou não e provavelmente o comércio vai começar a limitar as empresas carbono-intensivas", destaca Andreoli.

"Os empresários que se anteciparem e começarem desde já a se preocuparam com a questão do carbono, da redução das emissões e do aumento da eficiência energética de sua empresa vão ser os primeiros a beber água e, portanto, vão beber água limpa. Eles vão gerar um diferencial competitivo porque vai reduzir o seu custo e daqui a pouquíssimo tempo esse diferencial vai significar ter muita importância no mercado", ressalta o professor.

Professor propõe diminuir área destinada à pecuária

A agricultura no Brasil utiliza hoje uma área de 7% e a pecuária, junto com a silvicultura, ocupam outros 23%, ou seja, 30% do território nacional é ocupado por atividades agrosilvopastoris. Do restante, 65% são matas nativas e os outros 5% correspondem às áreas de urbanização, indústria, estradas, entre outros. "Se você diminuir a área destinada à pecuária, aumentando a área de agricultura, você vai produzir uma quantidade maior de alimento e vai poder reflorestar", propõe o professor Cleverson Vitorio Andreoli.

Mas além do aumento da cobertura florestal, o especialista enumera uma série de outras atividades interessantes para reduzir o impacto ambiental do agronegócio. O método de agricultura convencional, que utiliza a aração e gradagem do solo, destaca Andreoli, reduz a quantidade de carbono no solo enquanto o sistema de plantio direto, que utiliza tecnologias conservacionistas, propicia ganhos ambientais. "Quanto maior a quantidade de matéria orgânica no solo, maior é a fixação de carbono e, portanto, você tem condições muito melhores não só de agricultura, que a agricultura fica mais produtiva, mas o carbono no solo tem uma série de vantagens", aponta.

Andreoli lembra que o manejo conservacionista do solo é capaz de ser um reservatório de retenção de carbono maior que a vegetação que fica na superfície do solo. Uma forma de aumentar a fixação de carbono na terra seria a utilização do lodo proveniente do tratamento de esgoto. Após o processo de higienização desse resíduo, ele poderia ser empregado nas lavouras, elevando a quantidade de carbono no solo e promovendo a reciclagem dos nutrientes, melhorando a sustentabilidade. "O próprio plantio direto agrega carbono", lembra.

A relação entre a pecuária e as mudanças climáticas será debatida no EncontrosFolha
A relação entre a pecuária e as mudanças climáticas será debatida no EncontrosFolha | Foto: Ricardo Chicarelli/04/04/2016



Responsabilidade é de todos

A responsabilidade por tornar o mundo mais sustentável não é apenas de empresários e agricultores. Os cidadãos comuns também podem adotar atitudes e incorporar novos hábitos para ajudar a frear os danos ambientais. "Toda vez que existe um problema em uma negociação internacional, o presidente dos EUA se nega a assinar o Protocolo de Paris, todo mundo diz ‘poxa, ele se negou’. Mas ninguém precisa de um protocolo internacional para mudar suas próprias atitudes", ressalta Cleverson Vitorio Andreoli.

Privilegiar, sempre que possível, o transporte coletivo, não andar sozinho no carro, priorizar o uso de combustíveis renováveis nos veículos, dar preferência a produtos de empresas sustentáveis e ter em casa equipamentos que sejam energeticamente eficientes são algumas das medidas que estão ao alcance de qualquer cidadão consciente.

Na hora de aquecer a água utilizada no ambiente doméstico, a energia elétrica deve ser sempre a última opção, atrás do gás e da energia solar. "Um aquecedor solar instalado em casa se paga em quatro, cinco anos. Um sistema fotovoltaico se paga hoje entre oito e dez anos e os custos estão em uma queda vertiginosa", estimula Andreoli.

Outra medida seria reduzir o consumo de carne, especialmente a bovina, cujos custos de produção são muito elevados. "A carne é, além de hídrico-intensivo, carbono-intensivo. Se você se alimentar com proteína vegetal, a eficiência energética e a eficiência hídrica é muito maior."
E, por último, Andreoli destaca a necessidade da redução populacional. Um mundo com 7,7 bilhões de pessoas com determinados padrões de consumo dificulta a reinserção do planeta dentro da sua ordem adequada, garante Andreoli. "Sem uma redução da população ou uma redução no padrão de consumo, que hoje é uma coisa absurda, não teremos um planeta sustentável. Tem que começar a diminuir a população como um todo e melhorar um pouquinho a distribuição de renda", defende.

Utilizar mais o transporte coletivo: mudanças no estilo de vida da sociedade
Utilizar mais o transporte coletivo: mudanças no estilo de vida da sociedade | Foto: Shutterstock



Protocolo de Paris: US$ 100 bilhões para controle das mudanças climáticas

O Protocolo de Paris, firmado em dezembro de 2015 para substituir o Protocolo de Kyoto, propõe investimentos de US$ 100 bilhões anuais para projetos de controle das mudanças climáticas. O novo protocolo deverá estimular atividades como a agricultura de baixo carbono, em que é feito o manejo da matéria orgânica, aumentando a quantidade de CO2 nos solos ou o plantio de florestas. "A COP 21 (21ª Conferência do Clima, na qual foi costurado o Protocolo de Paris) pode propor, por exemplo, mecanismos em que a agricultura de baixo carbono tenha uma vantagem competitiva, como um imposto menor, um preço maior ou vantagens no comércio internacional", explicou Cleverson Vitorio Andreoli. "Os empresários têm que estar alerta porque vai haver uma disponibilidade financeira muito grande para os próximos anos."

A forma de distribuição dos recursos, no entanto, não está definida e depende de uma série de estudos ainda não concluídos. O que se sabe por enquanto é que esses US$ 100 bilhões virão de um fundo internacional, mas também não há definição sobre a forma de abastecimento desse fundo, que pode ser pela cobrança de uma taxa sobre o consumo de combustíveis fósseis, por exemplo. O pacto foi assinado por 195 países, mas os Estados Unidos, o segundo maior emissor global de gases de efeito estufa, recusou-se a aderir. Além dos EUA, apenas Nicarágua e Síria não referendaram o acordo.

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