Na era do telefone celular e dos vários instrumentos de comunicação proporcionados pela internet, ainda existe espaço para o radioamadorismo? É claro que sim: segundo dados da unidade paranaense da Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão (Labre-PR), apenas no Paraná há aproximadamente 3,2 mil radioamadores. Destes, 1.058 moram em Curitiba.
''O radioamadorismo não perdeu o fascínio porque é um meio muito aberto a experiências. É um hobby que estimula a pensar, a pesquisar, a ser autodidata'', explica o engenheiro eletrônico João Jubery Scholz de Andrade, que mora na capital paranaense e é radioamador há nove anos.
O presidente-executivo da Labre-PR, Emireno Heitor Ornaghi, destaca que, além do hobby, o radioamadorismo oferece muitas possibilidades. ''Quando há algum evento extraordinário, como uma tempestade forte, que gera dificuldades, o radioamador é chamado para ajudar, porque é o modo mais fácil de formar uma rede. Um exemplo ocorreu há alguns anos, quando aconteceu aquele vendaval na região de Guaratuba. A ressaca prejudicou o fornecimento de energia elétrica e as comunicações. Quem avisou a capital foram os radioamadores'', diz Ornaghi.
O presidente da Labre-PR, formado em Engenharia Elétrica, foi ''fisgado'' pelo radioamadorismo em 1966. ''Quando eu era estudante, fui operador de áudio de uma estação de rádio. Foi um dos meus primeiros empregos. Fiz locução por um período também. Esse contato com o rádio me fez tomar gosto pelo radioamadorismo'', conta Ornaghi.
Ele explica que o radioamadorismo tem três categorias: A, B e C. Os iniciantes ingressam na classe C. ''A pessoa fica no mínimo dois anos nessa categoria, praticando, exercitando, adquirindo conhecimento. Nesse processo, ganha condições para evoluir. É fácil flagrar um 'invasor' nessa área, porque há todo um linguajar que só os praticantes dominam'', aponta Ornaghi.
Para se tornar radioamador, o pretendente precisa passar por exames, que exigem conhecimentos de legislação, ética, elementos básicos de eletrônica e eletricidade, técnica, Código Morse, entre outros conteúdos. ''O Código Morse é o que mais 'trava' as pessoas que querem se tornar radioamadores'', ri Ornaghi. De acordo com o presidente da Labre-PR, no Brasil os testes são aplicados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Ornaghi aponta que no Brasil há atualmente cerca de 35 mil radioamadores. ''Já tivemos bem mais, uns 68 mil. O número de radioamadores diminuiu devido ao encarecimento dos equipamentos'', afirma. Ele diz que um equipamento de radioamadorismo novo, hoje, custa entre 2 mil e 8 mil dólares. Por essa razão, e em virtude do fascínio pela tecnologia de outras épocas, muitos radioamadores fazem questão de manter equipamentos antigos.
Os próprios praticantes descrevem a paixão pelo radioamadorismo como um vício. ''É tipo uma cachaça'', brinca Ornaghi. ''Normalmente, pratico pela manhã, das 6 às 9 horas. Faço comunicações até para fora do país: já falei com gente da Itália, Argentina, Colômbia, dos Estados Unidos''. O presidente da Labre-PR relata que mantém contato com uma filha que mora em Nova Jersey, nos Estados Unidos, através do radioamadorismo: ele entra em contato com um radioamador, que faz uma intermediação para que a filha de Ornaghi ouça o pai pelo telefone.
''Você faz amizades, fala com gente de todo o mundo'', diz João Jubery Scholz de Andrade. ''Em 1967, quando eu tinha 15 anos, comecei a mexer com eletrônica. Eu tinha o sonho de ser um radioamador, mas não levei adiante. Acho que na época faltou um 'mentor' para mim, alguém para dar um estímulo, e esta foi a diferença há nove anos, quando me tornei radioamador''.
Os praticantes do radioamadorismo promovem encontros com regularidade. A iniciativa de reunir pessoas que estão acostumadas a se falar, mas que nunca se viram, rende situações engraçadas. ''Certa vez, houve um jantar de radioamadores em Curitiba. Um amigo de Campo Mourão, que conhecíamos de contatos no radioamadorismo, chegou dizendo que era outra pessoa e a gente 'engoliu'. Só bem depois ficamos sabendo que era um amigo com quem a gente conversava pelo rádio fazia um tempão'', lembra o aposentado Elir Armando Stival, morador de São José dos Pinhais e radioamador desde 1985.

mockup