Curitiba tem 56 mil imóveis desocupados
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
O serralheiro Gilmar Salino Silva vive há oito anos em uma carcaça de um prédio inacabado em plena avenida Água Verde, nos arredores do centro de Curitiba. Ali, montou sua oficina e tem praticamente uma casa, com banheiro, cozinha, e ligações regulares de luz, água e esgoto, serviços esses que são inclusive cobrados em faturas regulares da Sanepar e Copel.
Gilmar conta que foi chamado inicialmente para trabalhar na obra, confeccionando as esquadrias do imóvel, que deveria abrigar salas comerciais. Depois do serviço ser interrompido inúmeras vezes, a construção parou e ele foi autorizado pelos proprietários a morar no local.
Há seis anos, Gilmar ganhou a companhia de Hélio Malinoski, que ficou desempregado depois que um empreendimento vizinho fechou. Hoje os dois se revezam, dia e noite, morando no local, cuidando do que restou da obra e, principalmente, evitando que o prédio seja invadido por sem-teto ou usuários de drogas.
O caso de Gilmar e Hélio é apenas um exemplo sobre a situação de um dos milhares imóveis desocupados ou abandonados existentes na Capital. Dados da Fundação João Pinheiro, de Belo Horizonte, com base em números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) apontam a existência de 56.300 imóveis vazios em Curitiba, o correspondente a quase 10% dos 650 mil domicílios existentes na cidade, segundo o IBGE.
Esse número inclui casas, edifícios residencias e comerciais, construções abandonadas, prédios comerciais inteiros, imóveis particulares e públicos. Estão incluídos desde prédios vazios há 10, 15 anos, como é o caso de dois grandes edifícios na Avenida Marechal Deodoro, até edificações subutilizadas. É o caso, por exemplo, de edifícios que têm lojas no térreo mas estão com os andares superiores
desocupados.
Uma das preocupações do município sobre esses imóveis é sua transformação em mocós. Segundo dados da Secretaria Municipal de Urbanismo, entre o iníco de 2005 e metade de 2006 foram contabilizados 163 mocós em Curitiba, organizados em construções abandonadas. A maioria ficava na área central, com 38 unidades. Em segundo lugar, apareciam 32 unidades na Regional da Boa Vista e, em seguida, 27 unidades no Cajuru.
Essa concentração chamou também a atenção da Associação Comercial do Paraná. Em seu movimento Centro Vivo, criado em 2004 com objetivo de revitalizar a região central da cidade, a Associação fez um levantamento desses vazios urbanos, estudando formas de reutilizá-los. Detectou que 60% dos prédios vazios são comerciais, 33% mistos e apenas 7% residenciais. Foram localizados, ainda, cinco apartamentos vazios em média por edifício, totalizando cerca de 660 apartamentos vagos em prédios abandonados ou subutilizados nessa área.
Segundo o superintendente de Projeto da Secretaria Municipal de Urbanismo, João Martinho Cleto Reis Junior, ao constatar um local abandonado, o primeiro procedimento é notificar o proprietário para que providencie a vedação do imóvel, com a construção de muro, fechamento de portas e janelas e faça limpeza periódica do local. Em caso de descumprimento, o proprietário é autuado e em caso de reincidências o processo é encaminhado para a Justiça.
A preocupação maior, de acordo com ele, é com relação a imóveis abandonados por algum embróglio judicial. Tratam-se em geral de massas falidas de empresas ou espólios de famílias sem definição. Uma comissão, formada pelas áreas de Urbanização, Segurança Pública e Saúde, acompanha esses imóveis com periodicidade, para evitar problemas como a criação de mocós, formação de lixões, acúmulo de água, que podem resultar em focos de dengue, proliferação de ratos e outros problemas.


