Criada há dois meses, a Secretaria Municipal Antidrogas realizará um trabalho essencialmente preventivo em Curitiba e municípios vizinhos, por meio de parcerias com as demais prefeituras da Região Metropolitana. Mas a nova secretaria contará também com uma rede de 2,7 mil informantes anônimos espalhados pela cidade com a missão de identificar e denunciar pessoas envolvidas com o tráfico de drogas. A equipe equivale a mais da metade do efetivo da Polícia Civil no Estado, que tem aproximadamente 4 mil policiais (incluindo os da Polícia Científica, isto é, peritos do Instituto de Criminalística e do Instituto de Identificação).

Em entrevista à FOLHA DE LONDRINA, o secretário municipal Antidrogas, Fernando Francischini, explica como a nova secretaria vai atuar. Antes de assumir a pasta, Francischini era o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal de São Paulo. Atualmente, encontra-se licenciado pelo Ministério da Justiça.

Folha - Qual é a justificativa para a criação de uma Secretaria Antidrogas na administração municipal?

Fernando Francischini - O prefeito solicitou em novembro que a gente fizesse uma pesquisa, um projeto que viabilizasse a diminuição da violência, dos crimes violentos, na cidade de Curitiba. A partir daí a gente começou uma pesquisa e chegamos à conclusão que quase 70% dos crimes cometidos, homicídios cometidos com armas de fogo, tinham relação com o tráfico de drogas. O segundo item da nossa pesquisa foi o alto grau de reincidência das pessoas que matavam em Curitiba. Então, quem matava e quem morria, a maioria deles tinha relação com (outros) crimes. Já tinham antecedentes, etc. A partir daí a gente chegou à conclusão que o melhor para Curitiba era montar uma Secretaria Antidrogas com a incumbência principal da prevenção ao uso de drogas, a reinserção social de dependentes químicos. Esse foi o início. De posse do projeto, o prefeito decidiu lançar a Secretaria e acabou me convidando para assumir como secretário.

Folha - Essa pesquisa apontou aumento dos índices de violência em Curitiba?
Francischini - A gente tem os dados que a mídia tem divulgado e os dados que a Secretaria de Segurança (Estadual) divulgou há pouco tempo. Mas os dados que a gente tem acompanhado pela mídia mostram uma elevação grande dos índices de homicídios e de crimes vinculados ao tráfico de drogas.

Folha - O senhor discorda, então, da afirmação da Secretaria Estadual de Segurança Pública de que a criminalidade em Curitiba não aumentou?
Francischini - O objetivo da Secretaria Antidrogas é colaborar com a Secretaria de Segurança e essa nossa colaboração não tem o intuito de criticar ou achar que o trabalho desta não está correto, e sim identificar que a Prefeitura, dentro da competência dela pode ajudar. Como? Com o trabalho preventivo, já que o repressivo é feito pela Secretaria (Estadual).

Folha - A atuação da Secretaria Antidrogas será somente no campo da prevenção?
Francischini - Ela é totalmente preventiva, 99%. O 1% é a criação de uma rede de colaboração curitibana e metropolitana. É uma rede de pessoas, líderes na comunidade em cada segmento que vão colaborar com a Prefeitura no mapeamento sobre drogas na cidade, nos crimes violentos. De posse dessas informações, nós vamos repassá-las para a Polícia Civil, a Polícia Militar, a Polícia Federal e colaborar. Aproveitando essa experiência minha e da minha equipe na área de inteligência, nós queremos receber informações da sociedade e repassar para a polícia de uma maneira organizada, dentro de uma sistemática de inteligência parecida com a que a Polícia Federal já faz.

Folha - Qual será a participação da Guarda Municipal?
Francischini - A Guarda Municipal vai participar em todos os projetos. Ela está dentro da Secretaria de Defesa Social. Então dentro desse contexto nosso de defesa social a Guarda, como não tem aquele papel repressivo da polícia, ela entra num contexto de colaboração em todos os projetos de prevenção, projetos de esporte, cultura e lazer. A Secretaria Antidrogas é na verdade uma secretaria de articulação. O papel dela é juntar várias secretarias num projeto direcionado para as drogas. Então ela vai ser o miolo, com as outras secretarias colaborando dentro do que cada uma faz.

Folha - Os projetos de prevenção serão realizados onde?
Francischini - Na cidade inteira, inclusive em algumas cidades da região metropolitana. Estamos em parceria com a maioria dos prefeitos, os que a gente ainda não conversou nós estamos ainda procurando e estendendo uma consultoria, uma parceria pra região metropolitana. O prefeito Beto Richa entende que gente não deve pensar em Curitiba sozinha. Porque na área de segurança pública não adianta cuidar só de Curitiba. Curitiba não tem mais como se dividir de Colombo, Pinhais, São José dos Pinhais. É uma coisa só.

Folha - Você estão conversando com as administrações desses municípios?
Francischini - A gente já esteve com Pinhais, Colombo, Tijucas do Sul. E nós estamos agendados já com Piraquara, Fazenda Rio Grande e São José dos Pinhais.


Folha - Quais projetos já estão em andamento?
Francischini - Estamos com um de esportes, que vai ser lançado semana que vem, o Bola Cheia. É um projeto realizado à noite. Estamos com um seminário de ensino à distância sobre drogas para a capacitação de líderes à distância. A rede de colaboração, um software de inteligência da Polícia Federal, que o prefeito está comprando para ter banco de dados e cruzamento de dados que nós vamos utilizar. Ao todo são mais de 16 projetos que, dentro da nossa capacidade de trabalho, aos poucos vão sendo implementados.

Folha - A Secretaria tem uma equipe da quantas pessoas?
Francischini - Hoje estamos beirando 30 funcionários já. São médicos, psicólogos, pedagogos, policiais que vieram da Polícia Federal, policiais civis, policiais militares da reserva. É uma equipe multidisciplinar. Além de toda essa equipe, a gente tem utilizado muito o Conselho Antidrogas para levar os projetos e obter aquela participação efetiva já que o Conselho tem funcionários de todas as secretarias da Prefeitura, de órgãos de imprensa, de entidades religiosas.

Folha - A Secretaria foi criada em um ano eleitoral. Ela é uma medida eleitoreira?
Francischini - A gente fica feliz com essa preocupação política desse ano porque mostra que é um projeto eficiente. Só se diz que um projeto é político quando ele incomoda e se incomoda é porque está dando resultado na população. E nosso objetivo não é político, é (levar) resultado para a população.

Folha - Qual é o orçamento da Secretaria?
Francischini - Nós estamos com aproximadamente R$ 1,5 milhão aprovados já para este ano. E estamos com uma suplementação agora de mais R$ 1 milhão esta semana sendo encaminhado para a compra de equipamentos, móveis, informática e softwares de inteligência. E com uma previsão de R$ 4,5 milhões na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) para o ano que vem. É uma Secretaria que nasceu pequenininha mas já está com um peso importante nessa área de prevenção em que a Prefeitura ainda estava engatinhando.

Folha - Existem iniciativas semelhantes em outras cidades brasileiras?
Francischini - A gente pode dizer que é um trabalho inédito no País. A própria Secretaria Nacional Antidrogas está acompanhando para ser um projeto piloto no País para outras prefeituras. A maioria das prefeituras têm conselhos antidrogas, como a Prefeitura de Curitiba já tinha. E um conselho acaba sendo um órgão que não tem força dentro do poder executivo porque é órgão deliberativo. Agora uma secretaria é diferente. O poder da caneta de um secretário é diferente do de um conselho.

Folha - Como você colocaria Curitiba hoje no cenário nacional no que diz respeito à violência e ao tráfico de drogas?
Francischini - O Ministério da Justiça coloca Curitiba como a sétima capital mais violenta do Brasil. Inclusive colocou Curitiba dentro do Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania). O Pronasci escolheu as 11 regiões metropolitanas mais violentas do Brasil e colocou verba do governo federal que nós estamos pleiteando agora com vários projetos. O segundo que a gente pode destacar é que o tráfico de drogas no estado do Paraná já é prioridade para a Polícia Federal há muitos anos. O Paraná já é rota internacional do tráfico de drogas há muitos anos. Tanto que os maiores traficantes do país (presos) todos eles tinham relações diretas com o Paraná.

Folha - Como será feito o mapeamento dos locais mais comprometidos?
Francischini - Estamos com o site www.antidrogas.curitiba.pr.gov.br e lá tem o campo ''denuncie''. As informações estão vindo pelo site e vão começar a vir a partir de junho pela rede de colaboração. A rede vai ter pessoas anônimas treinadas, ninguém vai saber quem é quem na população, que vão estar disponíveis para mandar informações pela internet para mim. Desde a pessoa lá no bairro como a pessoa dentro de um gabinete, em todos os cantos vai ter alguém. A idéia é a gente ter 2,7 mil pessoas treinadas até o dia 26 de junho, que é o Dia Internacional Antidrogas.

mockup