Curitiba pode implantar rodízio de carros
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quarta-feira, 14 de maio de 2008
Diego Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Como melhorar o trânsito na região central de Curitiba? Este deve ser um dos temas que aquecerá debates neste ano de eleições municipais. A polêmica já começou. O projeto proposto pelo vereador Custódio da Silva (PR) prentende implantar na Capital paranaense um rodízio de carros, semelhante ao implementado há mais de dez anos na cidade de São Paulo. O objetivo é diminuir o número de veículos que circulam no Centro, além de baixar a quantidade de gases poluentes emitidos pelos automóveis. O projeto ainda carrega mais uma dúvida. O usuário de veículo individual deixaria de utilizar seu carro para usar o transporte coletivo?
Segundo a relatora do projeto, vereadora Roseli Isidoro (PT), o assunto traz à tona um assunto que era inquestionável há alguns anos, o trânsito e o transporte coletivo de Curitiba. ''A qualquer instante nos deparamos com congestionamento. É um grande debate para a sociedade. A princípio sou contra o rodízio, é uma postura pessoal, mas está posto o debate'', afirmou Roseli. Para o autor do projeto, o rodízio é a única alternativa imediata para melhorar o trânsito de Curitiba.''Conversei com técnicos em São Paulo. Lá o rodízio funciona. Não vejo projetos imediatos para melhorar o trânsito'', explicou Silva.
O rodízio de carros em Curitiba aconteceria de segunda a sexta-feira para placas com dois finais diferentes, como por exemplo: na segunda-feira não circulariam na região central de Curitiba carros com dígitos finais 1 e 2, na terça-feira, 3 e 4 e assim por diante até sexta-feira, com finais 9 e 0. A exceção seria aplicada em motocicletas, veículos oficiais, táxis, ônibus e ambulâncias, que estariam livres para trafegar no Centro.
''As empresas de ônibus estão preparadas para suprir o aumento da demanda e as pessoas começarão a comprar com os comerciantes dos bairros, deixando de ir ao Centro'', argumentou Silva.
Para o diretor de transportes da Urbanização de Curitiba (Urbs), Fernando Ghignone, as soluções para o trânsito central na Capital já estão sendo colocadas em prática. De acordo com ele, a Urbs tem procurado sempre incentivar o uso do transporte coletivo, o que seria uma das alternativas para desafogar o trânsito.
''O usuário do transporte coletivo quer três coisas. Conforto, segurança e velocidade. Sobre o conforto, a Urbs procura colocar uma parada de ônibus próxima ao domicílio e ao trabalho do passageiro, além de ter substituído a frota com veículos novos. Além disso, vamos substituir ônibus menores por maiores, implantar câmeras'', contou o diretor, que é contra o rodízio.
''O rodízio tem sido uma péssima experiência no Brasil todo. Esta idéia é emocional. A cidade está em obras. Assim que elas acabarem, o trânsito deve melhorar'', explicou Ghignone.
Hoje há 1.860 ônibus em Curitiba. O número não aumenta desde 2005, mas em breve, de acordo com a Urbs, aumentará com mais 293 veículos. A Urbs informou que se preocupou em renovar a frota e colocou nestes anos 489 novos ônibus para substituir veículos defasados.
Poluição
Outro argumento do vereador que apresentou o projeto do rodízio é o de que com menos veículos nas ruas, haveria uma queda na emissão de gases poluentes. Entretanto, este raciocínio não teria funcionado na capital do estado vizinho.
''Em São Paulo não adiantou muito o rodízio para a redução de poluentes'', contou a professora Maria de Fátima Andrade, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP). Segundo a professora, há sempre aquele que tentará burlar o sistema de rodízio, comprando um carro velho para andar em dias que seu veículo titular estará impossibilitado de transitar.
O vereador Silva disse que um número insignificante de pessoas em São Paulo que compraram outro automóvel para usar em seu dia de participar do rodízio.
'Preconceito'
O representante comercial, Silmar Martins, 52 anos, é contra o projeto. ''O mais interessante é melhorar o transporte coletivo, procurar novas tendências. Ele não atrai mais. Hoje pega ônibus mesmo quem não tem carro. É preciso procurar outras alternativas'', opinou Martins, que utiliza seu carro diariamente para trabalhar.
Para Ghignone, é uma questão das pessoas experimentarem o transporte coletivo que, segundo ele, é alvo de preconceito algumas vezes. ''O maior problema é o preconceito, eu acho, porque fora dos horários de pico os ônibus estão tranquilos'', informou o representante da Urbs.
A comodidade parece ainda ser o principal motivo para os motoristas não sairem de seus confortáveis e modernos carros. ''Ainda tem como melhorar muito o trânsito sem o rodízio, como na Coronel Dulcídio. Não uso o transporte coletivo de jeito nenhum. Já usei muito quando era estudante. Talvez, se tivesse metrô, eu usaria'', relatou a advogada Ana Paula Singer, 29, referindo-se à proibição dos estacionamentos na rua Coronel Dulcídio entre 17 e 20 horas. A medida ocorre em outras ruas da região central da cidade e começou no final do ano passado.
Último caso
O especialista, professor do Departamento de Transporte da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Akischino, também acredita que o rodízio deve ser a última das alternativas para melhorar o trânsito.
''São Paulo utilizou esta alternativa (rodízio) porque já não havia outra'', explicou o professor. Uma das opções sugeridas por Akischino seria o aumento da capacidade das vias.
Uma enquete realizada pelo site Bonde (portal de acesso à FOLHA na internet) mostrou que 67% dos internautas da página acha uma boa idéia a implantação do sistema de rodízio para resolver o congestionado trânsito de Curitiba. Outros 33% acreditam que a idéia seja péssima, pois as alternativas de transporte não dariam conta da demanda.
A proposta de rodízio impulsionou uma audiência pública, que acontecerá no dia 20 de maio, às 14 horas, na Câmara Municipal, com diversos especialistas paulistas e paranaenses, inclusive com a participação de um representante do Ministério das Cidades.


