Albari Rosa‘‘Vendo loteria na XV há 26 anos.
Ainda vi carro na rua’’
Terezinha Santos, a ‘Borboleta 13’No começo, ninguém a queria. Uma vilã que vai acabar com o nosso ganha-pão, acusariam os comerciantes. Um obstáculo que nos obriga a desviar o trajeto, diriam os motoristas. Como os protestos eram muitos, a artimanha foi mais esperta: em apenas 48 horas, num final de semana, a rua que era uma das principais artérias de Curitiba se transformou em um vasto calçadão, repleto de floreiras, bancos e cafés. A Rua XV de Novembro ganhou cara nova e apelido: Rua das Flores.
Hoje, é essa mesma rua, transmutada em cartão postal, que acaba eleita como a cara de Curitiba. Numa pesquisa informal feita pelos repórteres da Folha com 90 pessoas, a Rua das Flores foi apontada pela maioria (24,4%) como a melhor tradução do viver na cidade. É ali que as crianças pintam os rostos de Curitiba nas manhãs de sábado, que os artistas de rua mostram sua face, que os maledicentes, rangendo os dentes na Boca Maldita, choram todos os dias o desaparecimento da velha Rua XV, que no entanto renasce no cotidiano das pessoas que a percorrem. É essa Rua das Flores, caminho diário, que serve de palco para grevistas, lustradores de sapatos, vendedores de loteria, militantes políticos, meninos de rua. ‘‘É aqui que tudo acontece’’, resume o policial Osvaldo Oliveira, 35 anos.
Festejada como a primeira via exclusiva para pedestres, considerada um shopping a céu aberto, a Rua das Flores pode até passar despercebida - porque já incorporada ao cotidiano da cidade - em meio a tantos pontos turísticos criados nos últimos anos, como a Ópera de Arame e o Jardim Botânico. Mas passear pela Rua XV ainda é o programa de todo curitibano nas manhãs de sábado.
Albari Rosa‘‘O Barigui é
a cara de Curitiba.
A idéia da cidade
é a do verde’’
Francisco Pucci, professor
Engana-se, porém, quem pensa que a velha Rua XV é a mesma de sempre. Não. Como o rio que passa em nossa aldeia - diria o poeta Fernando Pessoa - nunca é o mesmo rio, também a nossa Rua das Flores nunca é a mesma quando por ela passamos. Nos próximos meses, inclusive, o cartão postal de Curitiba vai passar por uma ‘‘cirurgia plástica’’. Para revitalizar a área, técnicos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) estão projetando uma série de mudanças visuais e a instalação de novos equipamentos urbanos ao longo do calçadão. Tudo isso como parte do projeto Revivendo Curitiba.
A idéia é trazer de volta o público que trocou o passeio pelo calçadão para olhar vitrines e fazer um lanche ao ar livre pelo ar-condicionado, a praça de alimentação e a segurança dos shopping centers. Os shoppings, aliás, proliferaram a ponto de roubar da Rua XV o comércio chique e as opções de lazer. Também os grandes e tradicionais cinemas do Centro (como o Condor e o Lido) foram atropelados pela tecnologia, conforto e segurança das salas dos centros de compras. Perdas lentas, sutis, que alteraram o perfil da rua.
‘‘Não vamos conseguir reverter o processo que se iniciou com os shopping centers, mas queremos criar algumas ‘âncoras’, para atrair pessoas que não costumam ir ao Centro’’, afirma a arquiteta Ariadne Mattei Manzi, coordenadora do projeto Revivendo Curitiba. O grande trunfo parece ser mesmo o afluxo de pessoas. Segundo uma pesquisa feita pelo Ippuc, diariamente cerca de 100 mil pessoas percorrem o calçadão - índice que bate de longe a frequência nos shoppings.
Nas manhãs de sábado, crianças se dedicam a colorir no calçadão da Rua das Flores, ensaiando o amor à cidade
O projeto Revivendo Curitiba inclui desde a instalação de mais bancos para pedestres até uma cobertura em alguns trechos da rua. No trecho que fica entre as ruas Dr. Muricy e Marechal Floriano Peixoto, devem ser colocadas mais floreiras. ‘‘Com o maior volume de pedestres, as flores da Rua das Flores acabaram perdendo o impacto’’, comenta Ariadne Manzi.
Na Praça Osório, já foi feita uma poda nas árvores para permitir a entrada dos raios solares e aumentar a iluminação natural durante o dia. Em volta do chafariz da praça, deve ser construído o ‘‘Café das Quatro Estações’’ - que vai oferecer diferentes tipos de bebida de acordo com a época do ano.
Na rua Comendador Araújo, que já está em obras, as calçadas serão ampliadas (de quatro para seis metros de largura) e vão ganhar luminárias estilo republicano, bancos, floreiras e mesas na calçada. A idéia é criar uma espécie de extensão do calçadão da Rua XV e facilitar a ida dos pedestres do Centro até o Batel.
É nessas andanças que o curitibano vive seus verdadeiros cartões postais. Afinal, boa parte das atrações turísticas da cidade foi fabricada, ao longo dos últimos anos. Talvez por isso as pessoas fiquem confusas ao tentar identificar o que é mais representativo na cidade. Às vezes, parecem jamais ter prestado atenção ao local onde moram há anos. Alguns não se atrevem a responder, outros pensam um pouco antes de arriscar um palpite, poucos têm a resposta na ponta da língua.
Depois da Rua XV, os itens apontados como a ‘‘cara de Curitiba’’ foram Jardim Botânico, o governador Jaime Lerner e os parques em geral, com 6,6%, cada um. Para alguns, dizer que todos os parques são a ‘‘cara de Curitiba’’ não é correto. O símbolo da cidade é algo mais específico: o Parque Barigui - a resposta de 4,4% dos entrevistados. A limpeza da cidade e a qualidade de vida empataram com o Barigui, na preferência dos curitibanos.
O clima, o verde e o transporte coletivo tiveram o mesmo número de votos: três cada um, o que representa 3,3%. A araucária, quem diria, continua sendo o símbolo de Curitiba para 2,2%. Mesma porcentagem tiveram o prédio da Universidade Federal do Paraná, da Praça Santos Andrade, o progresso da cidade, o ex-prefeito Rafael Greca, o Passeio Público, o Largo da Ordem, a Praça Tiradentes (marco zero de Curitiba) e a Rua 24 Horas.
Também dividiram opiniões o Teatro Guaíra, a Catedral, a tranquilidade, a organização, o Teatro do Paiol e o planejamento de Curitiba - todos com 1,1%. Os nomes da área cultural da cidade também foram lembrados. A administradora de empresas Bianca Ferro, de 32 anos, acha que o poeta Paulo Leminski tem tudo a ver com a cidade. A terapeuta Heloise Mansani, de 35 anos, diz que o artista plástico Poty Lazzarotto é o representante-mor de Curitiba, já que suas obras estão por toda a parte. Poty também foi o escolhido do fotógrafo Zig Koch, de 39 anos, que elegeu ainda a poeta Helena Kolody e o escritor Dalton Trevisan como símbolos dos curitibanos.
A poeta Alice Ruiz elegeu o céu de brigadeiro e o pôr-de-sol lilás. Como a dela, houve outras respostas inusitadas: Centro Cívico por ser frio como a cidade; saudade; casa de polaco e cara de curitibano, que, segundo o urbenauta Eduardo Fenianos, é a mesma tanto na criança de rua como no político.

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