Para quem nunca botou os pés na capital paranaense, Curitiba é o símbolo de cidade dos sonhos de muita gente. A fama de município ecológico, bem organizado e que oferece serviços públicos de qualidade para a população rompeu os limites geográficos e povoa o imaginário coletivo dos brasileiros e até dos estrangeiros. A inovação no sistema de transporte público até hoje é referência quando se pensa em Curitiba. Assim como a implantação de coleta seletiva de lixo e a limpeza da cidade. Aliás, limpo é um adjetivo recorrente na cabeça das pessoas, quase que um mantra, impossível dissociar da imagem de Curitiba.
O arquiteto Jaime Lerner (PSB), ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, reforça que a fama de Curitiba é mundial. ''Uma vez, em Tóquio, peguei um táxi que o motorista falava bem o inglês, o que é raríssimo. Então ele contou que viu num programa de televisão a história de Curitiba e que um japonês (Hitoshi Nakamura) foi o diretor de meio ambiente da cidade'', relata. ''Ele olhou para mim e disse que, inclusive, eu tinha aparecido também. Foi engraçado. É muito gratificante saber que Curitiba é uma das coisas positivas do Brasil.''
Para Lerner, a divulgação da cidade foi feita de boca em boca, por pessoas que vieram na cidade, gostaram e recomendaram o lugar. ''Então isso vai se reproduzindo. Não existe um marketing tão poderoso capaz de vender a imagem de uma cidade como Curitiba se de fato nela não existir diferenciais. A manipulação política procura sempre uma explicação medíocre para desmerecer algo de positivo que foi feito, como falar que a imagem de Curitiba é fruto apenas de propaganda'', diz o arquiteto, destacando que 80% dos curitibanos possuem vizinhança diversificada o que impediu a criação de guetos e possibilitou um clima de tolerância na sociedade.
A imagem construída de Curitiba, segundo Lerner, é resultado de processos de inovação constantes, que colocaram a cidade na vanguarda de soluções urbanas. ''É quase um compromisso de cada prefeito, que é cobrado pela população. Desde a década 1970, percebe-se o início da transformação e crescimento da cidade dirigidos pelo planejamento. Daí surgiu o sistema de transporte coletivo, parques, a Cidade Industrial de Curitiba, soluções de problemas ambientais e retomado os setores históricos, com a recuperação de equipamentos culturais'', elenca ele, acrescentando que o Teatro Paiol, a Ópera de Arame e a Universidade Livre do Meio Ambiente marcaram essa época de transformação.
No pensamento do publicitário Antônio Cescatto, existem dois estratos em Curitiba, que se interagem. O primeiro seria a presença de imigrantes na formação populacional, o que agrega um certo grau de europeização, reforçado pela limpeza, organização, geografia e clima quase ''alpino''. O segundo é a administração pública praticada, há cerca de 40 anos, praticamente ''única'', pela linha de trabalho e continuidade do planejamento urbano. ''Não existe outra cidade no mundo com essa peculiaridade. Um grupo de prefeitos levou adiante uma mesma idéia, mostrando que transcendeu a questão do poder e optou por uma visão mais humanista'', explica ele.
De acordo com Cescatto, houve uma intervenção urbana, nos anos 1970, no momento certo. ''Acho que se não houvesse aquela mudança na concepção de planejamento da cidade, teríamos enfrentado o caos. E essa reciclagem foi aceita pela população, que já era pré-disposta, pelo seu histórico antropológico. Hoje as pessoas têm orgulho e prazer de morar na cidade. Curitiba é o que é, hoje, por uma combinação destes fatos'', avalia o publicitário.
''Essas inovações que despertaram a curiosidade das pessoas. Tenho uma amiga inglesa que ficou surpresa com a organização e limpeza da cidade, isso porque as pessoas costumam conhecer primeiro Rio de Janeiro e São Paulo. Ela disse que parecia Washington (EUA), de tão organizada. É impressionante, mas percebo que as pessoas ficam chocadas mesmo com a limpeza'', conta o publicitário. ''Por mais que continue a crescer, acho que Curitiba não vai perder sua essência que é o cuidado e o carinho dos habitantes com a cidade, um comportamento que está impregnado na cultura local''.

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