Curitiba desafia pessoas acima do peso
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sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Os locais públicos de Curitiba têm estrutura para pessoas obesas? A doméstica Genaína Guilherme da Silva, de 40 anos, responde enfaticamente: Não. Quando eu trabalhava no Centro, certa vez fui passar na roleta do ônibus e entalei. Foi constrangedor, uma situação em que parece que está todo mundo te olhando. Pensei: Não vou mais sair de casa. Não consigo passar numa roleta de ônibus. Eu não tinha ânimo para mais nada. Minha vida era ficar dentro de casa, deitada na cama, relata a doméstica.
Genaína já teve 140 quilos e perdeu 16 desde que passou a freqüentar as reuniões do Grupo Águia Mulheres Acima do Peso (veja box). Planeja chegar aos 60 quilos. Acho que a falta de estrutura para obesos é um problema do mundo inteiro. O Brasil tem milhões de gordos e muitas vezes, por falta de estrutura, você não tem como ir e vir. As cadeiras de cinema, por exemplo, são minúsculas, critica Genaína.
A artesã Joana de Lourdes Caris, 49 anos, que também participa dos encontros do Águia, tem 122 quilos. Além de criticar o tamanho das roletas de ônibus, ela aponta outras restrições. Dependendo do posto de saúde, as cadeiras de plástico não aguentam. Em algumas igrejas, às vezes as cadeiras são de plástico também, afirma Joana. Ela diz que deixou de ir a certos locais porque eles não teriam estrutura adequada para obesos.
Não vou mais a restaurantes e lanchonetes onde as cadeiras, além de serem pequenas, são fixas e ficam muito perto da mesa, reclama a artesã. Essa carência de estrutura para obesos indica falta de amor pelo próximo. As pessoas têm que olhar para todos, oferecer condições para todo tipo de pessoa. A pessoa obesa é doente, não é obesa porque quer. Falta respeito, desabafa.
Mara Cooper, gerente do Vigilantes do Peso no Paraná, diz que a instituição não recebe muitas reclamações de falta de estrutura para obesos em Curitiba. Acho que a cidade até está bem servida. Mas é bom ressaltar que muitas vezes pessoas obesas não reclamam porque têm vergonha. Antes de perder peso, elas não expõem suas dificuldades, explica a gerente. Temos visto a obesidade crescer em Curitiba, principalmente entre adolescentes. Enquanto aumentar o índice de pessoas obesas, o suporte tem que melhorar, acompanhado de programas de qualidade de vida.
Há alguns meses, o prefeito Beto Richa (PSDB) sancionou uma lei que determina que hospitais e clínicas de Curitiba têm que disponibilizar macas com dimensões adequadas para obesos. O vereador Jorge Bernardi (PDT), autor da proposta, explica que teve a idéia após ouvir reclamações.
Recebemos queixas de pessoas obesas, que contaram que caíram de macas, ficaram desconfortáveis, justifica o vereador. Bernardi afirma que não sabe se a lei vem sendo respeitada. Não cabe à gente fiscalizar, mas pretendo dar uma investigada, diz. Ele acredita que são necessárias outras leis para que os direitos de pessoas obesas sejam respeitados. É um começo para que a pessoa obesa seja vista por outro aspecto. Essa lei não é um privilégio, é uma discriminação positiva, argumenta o vereador.
A professora de Educação Física e empresária Elen Simone Pope da Silva Milek, que perdeu 21 quilos (está com 58) no Vigilantes do Peso e hoje dá palestras na instituição, aponta que a falta de estrutura não é um problema exclusivo dos obesos. Essas situações em roleta de ônibus, poltrona de avião, por exemplo, demonstram uma realidade que não é contra o gordo, é contra o diferente. Não há estrutura para acolher o gordo, o cadeirante, critica.
Ela sugere que a cobrança de melhorias passa pela auto-estima. A primeira pessoa que é contra o obeso é o próprio gordo. Ninguém precisa colocar você numa saia-justa. A pessoa gorda, se não se aceita gorda, não tem auto-estima. Ela própria se coloca numa situação inferior, pondera a professora.


