Curas milagrosas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de abril de 2007
Marcos Martins<br> Equipe da Folha 
Na minissérie da televisão, a criança recém-nascida chora muito e é levada até a casa da benzedeira. A atitude era comum no início do século XX, mas quem pensa que hoje acabou, engana-se. ''Atendo em média umas dez crianças todo o mês, em busca de rezas para pequenos problemas'', revela Deise do Rocio, 53 anos, benzedeira há mais de 30 anos. Os ensinamentos foram passados pela avó. As opções de reza são quebrante, susto, rasgadura e ''peito aberto'', que atrai mães em busca de solução para filhos que - aparentemente sem motivo - choram bastante ou não crescem. ''Se a criança está com o peito aberto, ela míngua e não desenvolve bem'', conta.
Para medir o peito, Deise explica que é necessário pegar um pano que não estique e medir a distância entre as dobras dos cotovelos da criança. ''Você deita por cima do pano e se não fechar é porque ela está com o peito aberto, aí tem que colocar no lugar'', conta. E confirma que, após a visita, a criança sai de lá bem melhor. ''Atendo algumas que chegam agitadas ou chorando muito e já saem daqui bem mais calmas'', atesta.
Quem também usa o dom para buscar ajuda para crianças é Isolina Zanlorenzi Perusso, 73 anos, de Campo Largo. Conhecida como dona Dinda, ficou famosa curando bronquites. E hoje atende gente de todo o Brasil, que vem em busca de uma solução para o problema. ''Eu fui curada com essa simpatia, por isso acredito no poder que ela tem e quero levar para outras pessoas'', revela.
A grande procura por dona Dinda ocorre na Sexta-Feira Santa, quando atende em uma escola municipal de Campo Largo. No último feriado, mais de 2 mil pessoas passaram por lá. Primeiro uma conversa, depois uma reza e a imposição das mãos da benzedeira na cabeça da criança que precisa de cura. O ritual termina com a retirada de pedaços das unhas dos pés e das mãos e uma mecha de cabelo. Enrolado numa folha de papel com o nome da pessoa que quer se livrar da bronquite, o material é entregue à dona Dinda. E o que ela faz com ele ninguém fica sabendo. ''Não posso revelar'', conta. Segundo ela, se for revelado a força da simpatia diminui. ''Aprendi desta forma e sempre me esforcei para manter todas as etapas'', argumenta.
E quem procura a ajuda atesta que ela realmente funciona. A autônoma Izabel Cerqueira, 40 anos, de Colombo, buscou uma solução para a bronquite da filha de oito anos. ''Ela fez vários tratamentos mas não resolvia. Em dias de crise tinha que fazer inalação. Ela não dormia por causa das crises e eu não dormia de aflição'', recorda. Em 2004, Izabel ficou sabendo das simpatias de dona Dinda. Resolveu arriscar. ''Eu não tinha nada a perder, aí levei minha filha até lá na Sexta-feira Santa e me surpreendi com o resultado'', revela. Segundo ela, primeiro as crises diminuíram de intensidade e em meados do ano passado os sintomas desapareceram. ''Nem os médicos sabem explicar como isso aconteceu'', surpreende-se.
Já a estilista Daniela Hirata não acredita no ''poder de cura'' das benzedeiras. ''As coisas não acontecem desse jeito. Acho que a fé pode até ajudar, mas achar que você vai num lugar e vão curar você de alguma coisa, de jeito nenhum'', argumenta. A opinião é semelhante à do comerciante Leonardo Fatiga. ''Num momento de dor a pessoa tem que procurar um profissional, um médico que entenda do problema que ela tem. Meu pai chegou a frequentar as benzedeiras, muitos anos atrás, no interior. Ele achou que resolveu, mas eu não creio nisso, não'', avalia.
Em alguns casos, desconfiança. Em outros, preconceito, que deixa a benzedeira Deise do Rocio chateada. ''É uma coisa séria, feita com fé. Uma herança da minha avó, de um tempo em que se acreditava mais. E é claro que funciona, já que você nota que não havia esse monte de doenças que existe hoje'', opina.
Dona Dinda diz que nunca foi alvo de preconceito. Mas precisa enfrentar a desconfiança. ''Tem gente que pensa que não é verdade, que é algo para tirar vantagem ou explorar. Eu tive uma vida difícil, perdi minha mãe aos 13 anos e passei a cuidar de cinco irmãos. Faço isso por amor, por acreditar, por ter fé. Não cobro. Tem gente que deixa alguma ajuda, outros nem falam obrigado. Mas isso não me importa. Para mim o que vale é que todos se curem e rezo por isso a todo tempo. Isso é a minha felicidade'', conta.


