Cultura preservada e partilhada
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de junho de 2018
Amanda de Santa<br>Especial para a FOLHA 

Preservar, valorizar e divulgar a cultura japonesa por meio da arte. Esta é a principal missão dos grupos de jovens de Londrina, que reúnem descendentes e alguns brasileiros para a prática do taiko, tambor milenar japonês. Os integrantes aprendem muito mais do que tocar um instrumento. Levam para casa lições importantes do Oriente, como liderança, cidadania, respeito ao próximo, pontualidade, gratidão aos antepassados. São valores que precisam ser transmitidos adiante, para as futuras gerações.
A fundadora e presidente do Grupo Sansey, Mity Shiroma, diz que os jovens de hoje estão muito engajados na comunidade. "Eles vêm espontaneamente, diferente daqueles da segunda geração, que eram obrigados pelas famílias a estudar japonês", afirma. Para ela, as atividades dinâmicas e contemporâneas fazem com que os jovens se sintam atraídos pela cultura. O grupo, criado há 30 anos, é o mais antigo de Londrina. Com a dança contemporânea, o taiko, foi oito vezes campeão brasileiro e já representou o Brasil no Japão em duas oportunidades.
Nascido dentro de uma escola de karaokê, o grupo, hoje formado por cerca de 120 integrantes, atende desde crianças até a terceira idade. As atividades são realizadas de segunda a sábado numa sede própria, no Jardim Shangri-lá. Na época da fundação, durante a "onda dekassegui", a comunidade japonesa em Londrina sofria com uma evasão grande de descendentes e o afastamento dos jovens da cultura. Durante as comemorações dos 80 anos da imigração, Mity decidiu organizar um grupo para realizar shows em cidades que tinham pouco acesso à cultura japonesa.
"Os jovens, de 13 a 20 anos, tinham que cantar, montar e desmontar o som, deixar o camarim limpo", conta. O que era para ser uma ação pontual, tornou-se uma atividade permanente. Os valores ensinados desde o início viraram rotina. Ao final das aulas, todos fazem a limpeza do salão em sinal de respeito aos alunos que virão depois. Para manter a sede em funcionamento, além das mensalidades, o Grupo Sansey realiza promoções e eventos e conta com o envolvimento das famílias. "Para os pais também é gratificante, é uma forma de socializarem, estarem envolvidos com atividades da cultura japonesa", garante.
Com orgulho, Mity revela que muitos descendentes que passaram pelo Grupo Sansey hoje atuam como grandes líderes da comunidade japonesa. Para ela, a preparação dos jovens na preservação da cultura é uma forma de expressar gratidão aos antepassados. A atual coordenadora do taiko, Caroline Anami, já colhe os frutos da participação nas atividades da escola. Ela esteve no Japão duas vezes para apresentações de dança e agora retornará ao país, com uma bolsa de estudos, para realizar um curso de desenvolvimento de lideranças voltado para nikkeis do Brasil.
"Procuro mostrar aos jovens que os grupos não oferecem apenas atividades, trazem outras oportunidades e experiências", afirma. Nos últimos 13 anos como integrante do Grupo Sansey, Caroline fez amizades e diz ter aprendido muito sobre a convivência em equipe. Ela afirma que é preciso sempre pensar primeiro no coletivo e ter consciência de que o grupo vale mais e está acima de qualquer vontade individual. "Só quem participa sabe o quanto é bom e importante", avalia.
TRADIÇÃO DE OKINAWA
O Ryukyu Koku Matsuri Daiko (RKMD) Tambores Festivos do Reino de Ryukyu - mantém uma filial em Londrina há 9 anos. A matriz é em Okinawa, uma ilha ao sul do Japão. O líder do grupo na cidade, Yuzo Hilton Suzuki Shinzato, conta que o taiko praticado pelo RKMD é diferente, pois mistura movimentos do karatê às músicas tradicionais japonesas. É formado por cerca de 120 pessoas, a maioria jovens.
Shinzato afirma que cada música, movimento, palavra possui um significado muito forte e isso é transmitido aos integrantes. Eles aprendem sobre a cultura de Okinawa e os significados de cada letra. Este ano, os londrinenses receberam um instrutor do Japão, que veio para alinhar os movimentos, coreografias e também transmitir valores, como o respeito. "Sou descendente de Okinawa e quando fui conhecer a ilha tive um afeto grande pela cultura, por isso resolvi fazer algo para compartilhá-la e preservá-la", lembra.
O vice-líder do RKMD, Athos Yuuki Ishikawa, começou a participar das atividades em 2009, a pedido dos pais. Hoje, ele reconhece a importância de conhecer mais sobre a cultura japonesa. Além das amizades que conquistou nos últimos anos, diz que aprendeu muitas coisas que não teria visto em qualquer curso ou escola. "Disciplina, responsabilidade, respeito, pontualidade, desenvolvimento pessoal", cita. Para ele, preservar esses valores e as tradições japonesas é muito importante. "Isso nos conecta um pouco com as nossas raízes", justifica.
FORMAÇÃO DO CARÁTER
O Ishindaiko foi criado em 2003, em Londrina, e reúne cerca de 40 jovens, entre 12 e 30 anos, para a prática do taiko. O coordenador do grupo, Nelson Hidemi Okano, conta que a arte coletiva dos tambores japoneses é milenar e já foi praticada para propósitos militares, religiosos, teatrais, musicais. O som vibrante emana muita energia e sentimento. O taiko exige força física, mental e espiritual, requer disciplina, rigor, união e harmonia.
Sete vezes campeão brasileiro, o Ishindaiko se reúne semanalmente para os ensaios e compõe músicas inéditas. "Temos que idealizar o tema, a história e as batidas", conta. Uma das características é a sincronização. Como cada tambor emite um som diferente, é importante que todos apareçam de uma só vez e de forma única na música. Okano diz que, além de tocar os instrumentos, os integrantes também realizam movimentos corporais, que fazem parte da interpretação da música.
O envolvimento das famílias é uma das características do grupo, que transmite valores japoneses aos jovens. "Tentamos oferecer uma educação regrada para formar o caráter", afirma o coordenador. O fundador do Ishindaiko, Lucas Yoshio Muraguchi, conta que a primeira formação era de apenas três tocadores. "O grupo foi crescendo tanto em número de instrumentos, tocadores, qualidade técnica, como repertório. Começamos a participar de apresentações, festivais e campeonatos. Já tocamos na Argentina, Estados Unidos e Japão", conta.
Para ele, o taiko tem uma energia muito boa. "É como se os tambores falassem com as pessoas num nível muito íntimo e acordassem sentimentos que elas mesmas esquecem que têm", descreve. Apesar de ser descendente - os bisavós são nascidos no Japão -, Muraguchi diz que pratica o taiko porque gosta da arte. "É um ambiente muito saudável, onde todos cuidam de todos", afirma.
Nesta semana, os londrinenses terão a chance de ver um show inédito dos três principais grupos de taiko em Londrina, Sansey, RKMD e Ishindaiko, em comemoração aos 110 anos da imigração japonesa. A apresentação será realizada nos dias 22 e 23 de junho, às 19 horas, e no dia 24, às 15h e 19h, no Teatro Ouro Verde. Os ingressos estão à venda na Kilax Japan e Chocolates Brasil Cacau, da Gleba Palhano. Informações: [email protected].


