Cultura local ruma para a globalização
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quinta-feira, 10 de dezembro de 1998
Jackeline Seglin 
O atual momento econômico inspira cuidados... e temores. E o que vem pela frente, ninguém sabe. No setor cultural, o terreno também é desconhecido. Acostumada a ser relegada a planos secundários, a cultura no Brasil sobrevive graças ao empenho de quem faz ou de quem vê a importância do setor na sociedade. Em Londrina, apesar das incertezas, os produtores culturais têm suas expectativas.
Rumo ao ano 2000, Londrina desponta na globalização dentro da área cultural. Mas depara com a falta de condições, de dinheiro. A cidade tem um Festival Internacional de Teatro e um de Música, tem Semana de Artes Plásticas, tem séries musicais importantes, como a Série Crystal Palace e a Concertos Matinais, tem festival de corais. Tem ainda uma Escola Municipal de Dança, uma de Teatro, um Núcleo de Cinema e Vídeo... tem o Balé de Londrina e a Orquestra Sinfônica da UEL, importantes representantes da cidade no Brasil e em vários países. Sem contar os eventos isolados promovidos por companhias, grupos e artistas locais. Mas alguma coisa está faltando. Talvez, muita coisa.
A diretora do Festival Internacional de Londrina (Filo), Nitis Jacon, acompanha há 30 anos a evolução desse que é um dos mais representativos eventos da cidade - já consolidado no cenário teatral. Para ela, o festival deu seu start em 1968, dando uma direção que vem se mantendo até hoje. Nestes anos, tivemos saltos importantes. Um deles antecipou a posição de Londrina na globalização. Foi a 1ª Mostra Latino-Americana, em 1988, lembra Nitis.
Hoje, a Mostra Internacional de Teatro é a mais antiga do País, com 11 anos de história. Londrina está caminhando a passos largos. Nesse período todo, viemos fazendo uma rede entrelaçada de artes - circo, teatro, dança, artes plásticas, fotografia etc - e isso significa um caminhar rumo ao ano 2000, completa Nitis. O projeto do Filo para daqui a dois anos é a realização do Festival de Todas as Artes.
A diretora ressalta que a grande expectativa do setor cultural é pela criação de espaços. A gente ainda tem muita esperança de chegar ao ano 2000 com um Teatro Municipal. Assim, com condições técnicas adequadas, a cidade poderia receber outros tipos de produções. Temos inventado espaços para apresentações, o que é uma maravilha! Temos levado espetáculos para as ruas, feiras-livres, bairros e barracões. Mas não tivemos ainda uma ópera, por exemplo, por falta de condições técnicas, observa.
Nitis tem uma previsão otimista para os próximos anos. Para ela, o empresariado londrinense e paranaense começa a se dar conta da importância do ponto de vista do retorno de marketing e do ponto de vista social que o incentivo à cultura proporciona.
A preservação da identidade cultural no processo de globalização é a preocupação da musicista Magali Kleber, que nos últimos três anos tem sido a diretora pedagógica do Festival de Música de Londrina. Na sua avaliação, o evento - que no ano 2000 vai para sua 20ª edição - deve estar se adequando à realidade. Toda atividade cultural está sendo influenciada pelo multiculturalismo. O Festival de Música tem que seguir essa seta, diz.
Magali acredita que, à medida do possível, é preciso estar integrando a música erudita, a popular, a étnica. A música brasileira é riquíssima, mas pouco valorizada. Devemos cavar esforços para qualificá-la. É preciso cumprir um compromisso cultural de preservar a nossa identidade no processo de globalização.
A importância de um evento como o Festival de Música, segundo a musicista, vai muito além do que simplesmente cumprir uma agenda. O Brasil é um país musical, mas não existe nada em termos de educação. Eventos como esse são importantes porque dão possibilidades, por exemplo, de ter contato com vários tipos de música, de técnicas, que não fazem parte do cotidiano das pessoas. Queremos que o ano 2000 aponte para isso.
Para Magali, existe uma tendência em valorizar o ser humano, tendo como referencial sua cultura. E a música é um meio de conhecimento, de possibilidade de estimular a criatividade. O que falta, na opinião de Magali, é vontade política, em todas as instâncias, e o amadurecimento das pessoas. Só assim a cultura, e a própria sociedade, podem se elevar.
Chefe de uma das divisões da Casa de Cultura da UEL - a de artes plásticas - Maria Carla de Araújo Moreira pondera ao falar de futuro. Temos 99 pela frente, que vai ser um ano difícil. A idéia da nossa divisão é, basicamente, conseguir espaços. Londrina já atingiu um nível que, o que realmente falta, é um centro cultural. Estamos lutando para ter um espaço assim, que englobe não só artes plásticas, mas também teatro, cinema, dança, música.
O setor de artes plásticas está investindo em formação e é nessa área que vislumbra alguma modificação no futuro. A partir de março, a Divisão de Artes Plásticas começa a desenvolver um projeto que existe desde 1993 e até hoje não pôde ser realizado: uma oficina anual para crianças e adolescentes. É um público que nos interessa muito. Este ano, através do projeto de monitorias nas exposições, conseguimos atrair um pouco mais pessoas dessa faixa etária, conta. A meta da Divisão de Artes, hoje, é atingir e formar um público para 2000. Para nós, é importante que essas questões se sedimentem pouco a pouco.
Para o ano que vem, a Divisão pretende realizar uma edição mais enxuta da Semana de Arte. E de forma alguma pretendemos cair em qualidade, garante. Maria Carla Moreira avalia, no entanto, que seria otimista em falar de expectativas. Já passamos um ano difícil. Mas, apesar de achar que 1999 também será complicado do ponto de vista financeiro e da viabilização de projetos, espero que quantidade não seja sinônimo de qualidade, finaliza.


