Há quem diga que Curitiba e Região Metropolitana concentram perto de 2 mil terreiros de umbanda, quimbanda e candomblé, ficando atrás apenas da Capital baiana, que lidera o ranking brasileiro. O dado não é oficial, mas chamou a atenção de integrantes do Projeto Olho Vivo, que decidiram fazer uma pesquisa das casas de umbanda existentes em Curitiba. O trabalho resultou no documentário ‘‘Pra ver a Umbanda passar: do esquecimento à lembrança – Levantamento e mapeamento dos terreiros umbandistas em Curitiba, como elementos constitutivos da memória cultural da cidade’’.
  A historiadora e cientista social Luciana de Morais, que participou da pesquisa, disse que a intenção do trabalho não foi a de fazer um censo dos terreiros de umbanda instalados em Curitiba, até pela falta de tempo e de recurso. A idéia era mostrar que a religião está presente na Capital paranaense, de forma expressiva, mas tem pouca visibilidade. Segundo ela, 113 casas foram visitadas. Desse total, foi possível mapear 83 e oito delas foram escolhidas para fazer parte do documentário, patrocinado pela Fundação Cultural de Curitiba.
  Luciano Coelho, cineasta e diretor do documentário, lembrou que o Projeto Olho Vivo já havia trabalhado com outros temas ligados à cultura negra em Curitiba. Com o documentário ‘‘Preto no Branco – Negros em Curitiba’’, a equipe buscou mostrar que, apesar de ser considerada Capital de colonização européia, a região também sofreu influência de costumes trazidos pelos escravos.
  Na pesquisa sobre os terreiros de umbanda de Curitiba, o que ficou evidenciado, para Luciana, é que cada casa tem uma maneira diferente de trabalhar a religiosidade, estando vinculada ao estilo de seu dirigente ou ‘‘pai-de-santo’’. O perfil dos freqüentadores também é variado. ‘‘Há pesoas muito simples, mas também há gente de classe média-alta’’, observou a pesquisadora.
  Outro fator que ficou evidenciado durante a pesquisa é que muitos dos pais-de-santo e médiuns procuraram a umbanda porque estavam com problemas de saúde e acabaram, depois, ‘‘encontrando-se’’ na religião. ‘‘Historicamente, a umbanda é um consultório de saúde’’, disse Luciana, referindo-se aos primeiros registros da prática da religião no Brasil. ‘‘São pessoas que buscaram seu caminho em várias religiões e a umbanda foi a última alternativa’’, reforçou Coelho.
  O fato dos umbandistas preferirem ficar, de certa forma, no anonimato, é porque ainda existe muito preconceito em relação à religião, defendeu Luciana. ‘‘As federações que representam os terreiros tentam uniformizar as práticas para dar legitimidade à religião. O problema é que não há um consenso entre eles mesmos’’, avaliou a historiadora.


SAIBA MAIS


O que a pesquisa apontou

- A maior concentração de espaços religiosos dedicados à umbanda em Curitiba se dá nos bairros Alto Boqueirão e Boqueirão (13,25%), seguida dos bairros Cajuru, Vila Oficinas e Centenário (12,05%) e Xaxim (8,43%).


- A maioria dos espaços religiosos - 70,69% - é dirigida por homens (pais-de-santo).


- Mais da metade dos terreiros (53,54%) recebe, semanalmente, de 30 até mais de 50 pessoas.


- Quase 45% dos espaços autodenominaram sua linha religiosa como umbanda. Outros 25,86% afirmaram praticar umbanda e candomblé.

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