Camilla MaiaUm dos segredos dos odontopediatras é tornar interessante a ida ao dentistaPREVENÇÃO
Cáries devem começar a ser combatidas antes mesmo da primeira dentição
Cuidados chegam antes dos dentes
Ter cáries na infância e perder os dentes na velhice não precisa mais fazer parte da rotina dos brasileiros. Se a saúde bucal dos adultos continua longe do ideal, os dentes das crianças estão cada vez melhores e podem se tornar ainda mais perfeitos. O segredo é a prevenção, que deve começar antes da primeira dentição e continuar pela vida afora.
A Associação Brasileira de Odontologia (ABO) e o Ministério da Saúde registraram, nos últimos cinco anos, uma queda de 54% no número de cáries em crianças de até 12 anos. Como explica o dentista Ivan Loureiro, conselheiro e ex-presidente da ABO/RJ, essa redução é fruto da informação e da divulgação dos métodos de prevenção, além da distribuição de água fluoretada em 60% dos municípios.
Ele lembra que há também outros fatores. ‘‘A adição de flúor aos dentifrícios e as soluções fluoretadas para bochechos ajudam a evitar as cáries, inclusive depois dos 12 anos. Vários estudos demonstram que fazer bochechos com solução fluoretada interrompe a progressão das cáries entre os adolescentes e os adultos.’’
Cárie de mamadeiraA odontopediatra carioca Silvia Lago conta que quando se formou, há 12 anos, o Brasil ainda era considerado um país de desdentados e os profissionais não apostavam tanto na prevenção. Hoje, considera-se importante orientar a futura mãe, já na gravidez, a esquecer as mamadeiras noturnas e a reduzir drasticamente o consumo de açúcar pelos filhos, em qualquer hora do dia ou da noite.
A cárie de mamadeira, que afeta cerca de 5% dos bebês de 6 a 12 meses, pode ser prevenida. Em primeiro lugar, mesmo antes do aparecimento dos dentes, o que acontece por volta do quinto mês, a mãe já deve limpar as gengivas do bebê com cotonete ou gaze embebida em água oxigenada e fluoreto. Essa recomendação foi feita pela primeira vez pela Associação Dental Americana e é seguida agora no mundo todo.
Como a cárie é uma doença bacteriana e contagiosa, também é importante que o adulto jamais dê um alimento à criança na mesma colher em que comeu.‘‘Se um dente pegar cárie, os outros também podem se contagiar’’, explica Silvia Lago.
Prevenir educandoEducar os pais para a importância da prevenção da cárie nas crianças é a principal idéia difundida pela Bebê Clínica, um projeto desenvolvido pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) há 13 anos, e que vem servindo de referência para outros Estados e até outros países. Na clínica são atendidas crianças de 0 a 5 anos completos, e os resultados, até agora, mostram claramente que vale a pena investir na prevenção: nestes poucos mais de 10 anos, houve uma redução de 85% no índice de cárie entre as crianças atendidas pelo serviço.
Como influência do trabalho da clínica, os serviços de saúde bucal prestados pelos municípios no Estado, que antes abrangiam apenas de 5 a 12 anos, hoje são realizados na faixa que vai de 0 a 14 anos. Entre os principais cuidados ensinados aos pais estão a limpeza dos dentes após as refeições (para os bebês, a higiene deve ser feita com fralda embebida em água filtrada ou fervida após a última mamada) e o controle do consumo de açúcar.
Um ponto importante a ser lembrado é que os pais não devem esperar a cárie para a primeira visita ao dentista. A criança de 4 anos já aprende a usar o fio dental e beneficia-se da mastigação de uma pastilha, usada por muitos odontopediatras, que tem uma substância, a fuccina, que revela a placa bacteriana.
Os dentistas também ressaltam a importância do horário da limpeza. Crianças e adolescentes devem sempre escovar os dentes depois do café da manhã e não antes, como a maioria costuma fazer. ‘‘A escovação deve ocorrer três vezes depois e uma antes, ou seja, três vezes depois das principais refeições e uma vez antes de dormir’’, ressalta o dentista Ivan Loureiro, da ABO/RJ.
Proteção extraAlgumas crianças têm problemas que devem fazer os pais redobrarem a atenção. Um exemplo é a predisposição anatômica às cáries, quando a fossa onde se mastiga é mais funda que o habitual. Uma solução, nesse caso, é colocar um selante, proteção dos dentes, ainda antes dos 6 anos, fase em que não caíram os dentes de leite.
Outro problema pode ser o formato da arcada dentária. Segundo a odontopediatra e ortodontista do Rio de Janeiro Claudia de Moraes Souza, boa parte dos profissionais brasileiros estão adotando a ortopedia funcional, que emprega aparelhos móveis para a correção de problemas como mordida cruzada ou queixo para fora. A ortopedia funcional pode ser usada mesmo em crianças que ainda não têm a dentição definitiva.
Qualquer que seja o motivo da ida da criança ao dentista - prevenção, obturação ou colocação de aparelho - a novidade de muitos consultórios é transformar tudo em diversão. Claudia Souza, por exemplo, oferece óculos virtuais e fones de ouvido para que as crianças vejam e ouçam filmes - de desenhos da Disney a filmetes de computação gráfica - durante o tratamento. Elas gostam tanto que muitas se recusam a sair da cadeira no fim da consulta.

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