O descredenciamento de todos os médicos de 20 planos de saúde que atuavam no município de Ivaiporã (Norte), no último dia 23, aterrorizou quem ‘‘foge’’ do atendimento público. A medida foi tomada após anos de pedidos de melhor remuneração e condições de trabalho que não foram respeitados.
De acordo com o presidente da Associação Médica do Paraná (AMP), José Fernando Macedo, não há necessidade de o médico estar credenciado a uma operadora para trabalhar. ‘‘O paciente que pagar por uma consulta particular poderá pedir reembolso ao plano do valor que está previsto na tabela da operadora’’, explica. No caso de pedidos de internações e de exames segue a mesma orientação. ‘‘O médico pode realizar o pedido normalmente. O usuário é o cliente e não o profissional da saúde. Ou seja, a operadora não pode se negar a realizar os procedimentos. Nada disso, porém, é divulgado.’’
Esta ‘‘novidade’’ só vem reforçar a iniciativa agravada pela ausência total de repasse aos médicos, apesar do reajuste anual aos usuários ser autorizado pela Agência Nacional de Saúde (ANS). ‘‘A defasagem chega a mais de 100% no valor das consultas nos últimos dez anos’’, revela. Numa conta rápida, ele exemplifica que o valor médio pago não cobre as despesas necessárias para se manter um consultório. ‘‘Se o médico atender 170 consultas ao mês, ao valor médio de R$ 42, vai dar um total de R$ 7 mil. Descontando 27% de impostos, dividir pelas despesas fixas, sobram cerca de R$ 5,53 por consulta. Os médicos não suportam mais trabalhar por este preço’’, reclama o presidente, completando que há planos que pagam R$ 13 por consulta.
Se a situação chegou a esse estágio na rede complementar, quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS) fica à mercê da vontade política. Exemplo disso é a não regulamentação da Emenda Constitucional 29 - que trata basicamente da reestruturação referente aos repasses dos recursos à saúde - que até hoje, entra governo e sai governo, não foi votada. ‘‘Não tem como fugir, a solução sempre vai recair na questão financeira, seja remuneração dos profissionais ou na contratualização dos hospitais, principalmente os filantrópicos’’, alerta o presidente da Federação dos Hospitais de Serviços de Saúde no Estado do Paraná (Fehospar), Renato Meroli.
Segundo ele, os hospitais estão assumindo em grande parte as despesas provenientes do SUS. ‘‘Todos os estabelecimentos estão trabalhando com déficit significativo. Existem entidades filantrópicas que os repasses não chegam a cobrir 50% do valor real dos atendimentos. O resultado é o acúmulo de dívidas e perdas de crédito para manter as instituições. É impossível trabalhar assim’’, defende ele, dizendo que a situação da saúde está em seu pior período no Paraná. Além das dívidas, ele lembra o problema antigo da revisão da tabela de preços dos serviços médico-hospitalares. ‘‘O profissional precisa ser bem remunerado. Hoje, não há estímulo algum para trabalhar.’’ (M.T.)

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