Curitiba - A crise não foi a maior nem a pior da nossa história. Mas veio num momento em que os mecanismos de investigação e fiscalização da democracia brasileira escancararam os métodos obscuros usados nos bastidores do poder. Essa é a avaliação do professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Costa de Oliveira, sobre a crise política que marcou o ano de 2005 e que deve continuar no próximo ano, quando serão escolhidos presidente e vice, governadores e vices, senadores e deputados federais e estaduais.
Oliveira, doutor em Ciências Sociais, avalia que o escândalo ganhou grandes proporções, mas isso é positivo, considerando que o País saiu de uma ditadura há duas décadas e ainda engatinha na democracia. ''É positivo e é um avanço. O que acontecia durante oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) agora foi colocado na luz da pauta política. Até pelo fato de boa parte da mídia ser contra o atual governo, o que facilita essa fiscalização e denúncias. Na época do FHC não se mostrava tanto isso, tanto que o chamado valerioduto não é invenção nova'', analisa.
O ano político foi um pesadelo para o governo federal, terceiro da gestão Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Denúncias do mensalão que seria pago a deputados em troca de apoio, renúncia do ex-presidente do PT José Genoíno, o afastamento do ex-tesoureiro Delúbio Soares, a cassação de José Dirceu ex-líder da esquerda, ex-homem forte do governo e figura histórica do PT.
O ex-chefe da Casa Civil foi cassado na esteira das denúncias detonadas pelo também ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), que caiu mas foi o estopim de diversos processos de cassação que ainda tramitam na Câmara Federal. Além disso, a crise política que atingiu diversos partidos da situação e oposição teve ingredientes picantes: dinheiro transportado na cueca, depoimentos que varavam a madrugada nas CPIs expondo a vida dos familiares dos acusados e até a primeira renúncia de um presidente da Câmara dos Deputados. O pernambucano Severino Cavalcanti (PP) assumiu em fevereiro e renunciou em setembro deste ano, acusado de cobrar propina de um empresário na Câmara.
As Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) tentam fazer a faxina. Mensalão (já encerrada), Correios e Bingos transformaram a vida do Congresso. O palco central são as sessões das CPIs, não o plenário.
Essa dinâmica de foco nas CPIs, apesar de agora garantir holofotes para oposição, pode ser um tiro pela culatra, na avaliação do cientista político. ''Ou as CPIs condenam ou elas absolvem. E isso vai ser uma arma que também pode ser um tiro pela culatra da oposição, favorecendo a situação, dependendo dos resultados'', aponta Oliveira.
''De certa maneira, as CPIs produzem uma bola de neve e se perdem, não chegam a resultados mais objetivos e concretos. Foi o que aconteceu com a CPI do Mensalão, que acabou laconicamente e não conseguiu provar nada de maneira mais definida'', avalia. ''Já a CPI dos Correios teve que adiar seu prazo para ter alguma conclusão que seja objetiva. E a CPI dos Bingos está numa grande confusão'', emenda.
O professor entende que todo esse quadro de crise deixa claro para o eleitor um fato. ''Poder político e eleições estão associados com o poder econômico. Eleições são muito caras e todos os partidos demandam muitos recursos. Quem ganha precisa de muito financiamento. Política e dinheiro andam juntos no Brasil'', frisa. ''Na verdade, isso é um problema de toda a democracia moderna, na Europa e nos Estados Unidos também. A fiscalização, a vigilância também são necessárias'', compara.
A crise tem ainda outro aspecto, observa o cientista político: a falta de controle efetivo do Congresso por parte do Planalto. ''A crise política começou quando o governo federal perdeu a presidência da Câmara, com a eleição de Severino Cavalcanti. E o Planalto só retoma parte do controle quando consegue colocar um aliado na presidência da Câmara (Aldo Rebelo, do PCdoB).''
Na opinião de Oliveira, o tom da campanha de 2006 ainda vai depender de uma definição em relação à verticalização que obriga nos estados a repetição das alianças no plano nacional. ''Acredito que, em linhas gerais, o sistema político brasileiro tende a um dualismo. Uma oposição forte e uma situação forte. Em 2006, deve ser PT contra PSDB e PFL'', prevê.
O cientista político observa que o PT, apesar da imagem ética manchada, ainda tem o que mostrar. ''O governo continua operando e tem uma situação macroeconômica estável, a inflação está controlada, ele pode apresentar resultados como os da Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílio (PNAD) mostrando que a diferença social melhorou. Isso é importante para o discurso do PT, dizer que a desigualdade social teve uma ligeira diminuição'', frisa. Manter a economia nos trilhos e os indicadores sociais em alta será o desafio de Lula nos próximos meses, aposta o professor.

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