Crise dificulta a vida dos dekasseguis
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de junho de 1998
Osmani Costa 
O movimento nas agências de turismo e agenciadoras de emprego para dekasseguis - brasileiros descendentes de japoneses que emigram para o Japão em busca de trabalho - prossegue intenso em Londrina. O problema é que nos cinco primeiros meses de 98, pela primeira vez em mais de dez anos, há mais pessoas na fila procurando emprego do que vagas sendo ofertadas pelas indústrias do Japão, a segunda economia mundial depois dos EUA.
É a consequência direta e imediata da quebradeira bancária e da depressão econômica que assolam, desde o segundo semestre de 97, os Tigres Asiáticos. O Japão, paradigma da prosperidade desde o pós-2ª Guerra Mundial (1939-45), que havia investido muitos bilhões de dólares nos países vizinhos, está sofrendo repercussões ainda não totalmente conhecidas e divulgadas.
Na Tokio Tour, agenciadora especializada no envio de dekasseguis ao Japão, a lista de candidatos a um emprego chegou a 86 em maio. No ano passado, a agência despachou em média 20 brasileiros por mês com empregos garantidos naquele país. Desde janeiro, este número caiu rapidamente. Em abril, somente cinco dekasseguis - filhos, netos ou bisnetos de japoneses - conseguiram trabalho. Em maio, apenas três pessoas se mudaram para o Japão assessorados pela Tokio. Ainda no mês passado, houve o cancelamento do contrato de trabalho com oito londrinenses que já estavam com o visto de entrada no Japão liberado e com as passagens compradas.
Esta situação era previsível desde o final de 97, mas infelizmente não podemos fazer nada para evitá-la. A crise do Japão é grande e séria, segundo informações que nos chegam de lá. E as demissões atingiram diretamente os brasileiros, comenta Alex Thaizo Nonomura, um dos proprietários da Tókio Tour em Londrina, empresa que tem matriz em São Paulo.
O rombo parece ser mesmo grande. O Parlamento japonês aprovou, recentemente, um corte de gastos e remanejamento de US$ 127 bilhões no orçamento de US$ 584 bilhões para o novo ano fiscal, iniciado em abril. Mais da metade da austeridade econômica recai sobre a rubrica de novos incentivos fiscais para produção e consumo.
O desemprego é inevitável. A taxa de 3,6% de desempregados já é recorde na história daquele país, nos últimos 52 anos. Não há números confiáveis e nem oficiais divulgados recentemente, mas informações que chegam do Japão dão conta que cerca de 30 mil brasileiros - dos aproximadamente 220 mil que lá vivem - estão desempregados. Muitos deles, aí incluídas famílias inteiras, estariam sem dinheiro para aluguel, manutenção ou passagem de volta.
Nestas duas centenas de dekasseguis embarcados para o Japão, nos últimos dez anos, encontram-se perto de 40 mil paranaenses. Eles saíram notadamente de Londrina, Maringá e Assaí. Hoje, não temos nenhum emprego para oferecer para homens; só alguns poucos para mulheres, mas as exigências na hora da seleção são muito grandes. E temos cerca de 30 casais e mais dez solteiros na lista de candidatos a dekassegui. A situação piorou muito desde janeiro. Em abril e maio, não conseguimos mandar nenhum brasileiro empregado para o Japão, conta Delise Aparecida Ribeiro, agente de turismo da Tkashitur há quase 11 anos.
Nos anos anteriores, esta agência mandou mensalmente entre 20 e 30 dekasseguis. Os setores que tradicionalmente mais empregaram brasileiros são os de auto-peças, aparelhos eletroeletrônicos e da alimentação. Agora, a situação se inverteu. Aumentaram em muito as exigências de qualificação para a mão-de-obra brasileira, principalmente no tocante ao domínio da língua japonesa. As poucas vagas em oferta no Japão para dekasseguis são para pintar prédios, construir pontes, cuidar de granjas de porcos e aves. É o subemprego, afirma a agente de turismo.
Junto com o desemprego e a diminuição na oferta de vagas, vieram o aumento das exigências, das restrições, diminuição das horas extras e dos salários pagos (em cerca de 20%). Agora, a preferência é por solteiros - descendentes diretos de japoneses, portanto - com até 45 anos de idade, pelo menos 2º grau completo, e com 60% de domínio da língua japonesa falada e escrita.
Os salários mensais médios recebidos por brasileiros ficam em torno de US$ 3.000,00. Estimativas indicam que os dekasseguis mandam cerca de US$ 3 bilhões anuais para o Brasil. Os custos da mudança de um dekassegui para o Japão varia entre US$ 2.000,00 e US$ 2.500,00. Este valor é depois descontado em seis parcelas direto na folha de pagamento.


