Era uma tarde de terça-feira, de muito sol. Na casa humilde da fazenda Santa Luzia, em Florestópolis (77 Km ao norte de Londrina), encontramos três crianças: Diego, de 12 anos, Daiane, de 8, e a irmã caçula, Mayara, de apenas 6. Enquanto Diego vai chamar pelos pais que trabalham na roça, Daiane faz as ‘‘honras’’ da casa. ‘‘Vamos sentar no banco, ali na sombra’’, sugere, muito gentil, conduzindo a equipe de reportagem para debaixo de uma jabuticabeira, no fundo da casa, onde um banco de madeira foi cravado no chão de terra batida.
  Cheia de gentilezas, a menina muito falante chama a atenção pela delicadeza e, ao mesmo tempo, pelo olhar triste. Ela nos conta que são em quatro irmãos. ‘‘Tem a Luana também. Não pode esquecer da Luana’’. A pequena Luana hoje não está entre eles, mas a esperança de ter a irmãzinha de volta, está ali, muito presente. ‘‘Acho que ela vai voltar logo. A gente sente muita saudade’’.
  A chegada dos pais, Sérgio de Oliveira Lopes, 32 anos, Neide Ribeiro de Oliveira Lopes, também 32, e da avó Irene de Oliveira Lopes, de 48 anos, confirma o sentimento de angústia vivido pela família há quase três anos.
  No dia 16 de novembro de 2003 a pequena Luana, então com oito anos, foi seqüestrada por um motorista de caminhão no km 35 da Rodovia João Lunardelli, próximo ao sítio São Marcos. Ela estava acompanhada do irmão mais velho, Diego, com 10 anos na época.
  Os pais contam que as crianças tinham ido buscar leite na propriedade vizinha, do outro lado da rodovia. ‘‘Era a segunda vez que a ‘Nina’ (como é chamada pela família) ia com o Diego. Eu sempre ia com eles, mas aquele dia não fui. Estava trabalhando’’, conta o pai, Sérgio, com profunda tristeza nos olhos.
  A mãe, Neide, tinha ficado em casa. ‘‘Quando eu ia pra roça ficava o tempo todo preocupada de deixar as crianças sozinhas. Mas aquele dia eu estava em casa... Não tinha como acontecer...’’, ressente-se a mãe.
  Enquanto os adultos relembram o caso, as crianças ficam em silêncio. A tristeza é mais marcante na expressão de angústia do rosto de Diego, que acompanhava a irmã mais nova, quando foram abordados pelo caminhoneiro. A cada frase da mãe, ele parece reviver o momento de desespero dele e da irmã.
  Falando pouco, Diego conta que o homem parou o caminhão e perguntou se eles queriam ‘‘cobertas’’. Abrindo a porta do baú, fez com que as crianças entrassem no caminhão e trancou a porta pelo lado de fora. ‘‘Comecei a gritar e ele disse que, se eu não ficasse quieto, ia me matar. Minha irmãzinha falava pra obedecer’’.
  Fazendo muito barulho, o menino foi retirado do caminhão e conseguiu correr. Ele ainda foi perseguido pelo motorista, que o amarrou e o agrediu na cabeça com um pedaço de pau, provocando o desmaio do garoto. Em seguida, o motorista fugiu com Luana.
  ‘‘É uma dor muito grande, mas a gente sabe que ela vai voltar um dia’’, fala a avó, que também convive com os momentos difíceis da família. Ela relembrou recentemente a notícia de uma ossada encontrada em Ibiporã (14 km a leste de Londrina), onde a polícia cogitou a possibilidade de ser de Luana. ‘‘Fui lá e olhei a ossada. Tinha certeza que não era’’.
  Recentemente, uma informação, repassada por uma mulher de Londrina, pode ter dado pistas do caminhoneiro acompanhado de uma menina, que teria sido preso numa cidade do Paraná. A menina teria sido encaminhada a um orfanato. ‘‘Estamos esperando. A polícia está inves-tigando’’, contou o pai, sem esconder a ansiedade.
  Informações como estas geram expectativas de medo e de alegria em toda a família. ‘‘As crianças não dormem, ficam perguntando quando a Luana vai chegar. Você fica desesperada, com medo da notícia ruim ser verdade. A gente espera encontrar a Nina viva’’, afirma a mãe que sempre sonha com a filha. ‘‘Sonho que ela me abraça e pede pra eu não chorar mais porque ela vai voltar. Ontem mesmo sonhei que ela me abraçava e dizia que já estava chegando’’.
  A mãe tenta esconder as lágrimas dos outros filhos. ‘‘Mas pra gente é difícil porque tem de fazer de tudo pra não passar pra eles toda a tristeza que a gente sente. Esses dias chorei muito e a Daiane perguntou porque eu estava chorando. Disse que tinha caído sabão no meu olho, mas ela sabia que não era isso’’.

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