Costurando uma vida melhor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Quando Ataulfo Alves e Mário Lago compuseram a música "Ai! Que saudades da Amélia", no início da década de 1940, uma garotinha homônima à personagem da famosa música, com apenas uma década de vida, já fazia de tudo em casa, ajudando a mãe na labuta doméstica. Passadas sete décadas, a Amélia filha de uma espanhola com um italiano, e que chegou em Londrina na juventude, continua sendo a "mulher de verdade" que não tem vaidades e não se cansa de trabalhar. Mas diferente daquela que inspirou os músicos, a Amélia daqui não acha bonito alguém não ter o que comer ou o que vestir. Muito pelo contrário: perde o sono só de saber que algum vivente está passando por este tipo de apuro.
Por isso, desde que se conhece por gente, Amélia Belieiro Ribeiro, de 80 anos, arregaça as mangas diariamente para amenizar o sofrimento alheio. Basta passar pela porta da frente de sua casa para perceber como ela escolheu transformar a realidade ao seu redor: recebe roupas usadas, conserta (às vezes faz verdadeiras transformações), lava, passa, dobra, embala e encaminha a quem precisa.
A pequena residência de madeira, localizada em um bairro antigo de Londrina, mais parece um ateliê de costura. Na sala está a grande caixa de plástico que o filho trouxe do Japão, chamada carinhosamente de "caixa do amor". É ali que dona Amélia guarda as peças cosidas com cuidado na velha máquina Singer, herança da mãe.
"Trapo não se dá para ninguém", diz ela, para justificar tanto trabalho com os consertos. E bota trabalho nisso. Só este ano, a ex-comerciante nascida em Jaú (SP) já doou a famílias carentes mais de 25 mil peças. Quando as dores provocadas pela artrose dão uma trégua, ela chega a arrumar uma centena de unidades em um só dia, entre camisas, calças, bermudas, vestidos e o que mais lhe cair nas mãos. Em algumas comunidades rurais da região, os lotes de roupas são tão bem-vindos que é preciso distribuir senhas para que todos consigam desfrutar do capricho da "irmã Amélia", como é conhecida entre os fiéis da Igreja Adventista.
Ao longo dos anos, dona Amélia criou uma rede de colaboradores (muitas vezes anônimos) que a ajudam a manter sempre cheia sua "caixa do amor". Mas se acontecer de faltar, ela não se furta a pedir. "Se for para mim, eu morro mas não peço. Mas se for para ajudar os mais necessitados, sou cara de pau", confessa, bem-humorada, a "costureira".
A gratidão de Amélia com aqueles que a ajudam a amenizar as privações alheias é tanta que ela não deixa ninguém sair de sua casa de mãos vazias. Nos intervalos entre os consertos, produz sacolas, aventais e outras peças com retalhos que sobram das reformas. Com esses mimos, ela presenteia quem a ajuda a ajudar. O desapego aos bens materiais, conta, é herança de família. "Uma vez meu pai chegou em casa sem camisa, porque tinha doado a um homem que encontrou na rua e precisava mais que ele. Lá em casa sempre foi assim", diz, revelando que tem apenas dois vestidos, um deles reservado para ir aos cultos. "Tenho só um corpo, pra que ter muita roupa?"
Na casa sem luxos, onde ela mora com o filho, esta filosofia de vida é facilmente constatada. "Eu e meu marido (morto há três anos) chegamos a ter três farmácias, mas hoje não tenho nem uma casa para morar. Pago aluguel." Nas palavras da ex-comerciante, porém, não há o menor sinal de arrependimento. "É muito gratificante poder ajudar as pessoas. Fico mais feliz do que se fosse eu que estivesse recebendo." Uma felicidade traduzida pelos gestos carinhosos e pelo sorriso sempre presente no rosto de Amélia.
Boa de conversa, ela recebe os novos e velhos amigos com um já conhecido chá de ervas e gengibre, além de uma imensa simpatia. "Ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar e nem tão rico que não tenha nada para receber", costuma dizer a londrinense de coração, que tem orgulho de ser de uma época em que a cidade tinha apenas um prédio no Centro. Amélia, mulher que não se assusta e nem se acovarda diante da miséria, tem feito com maestria a sua parte para tornar este um lugar melhor para se viver.



