Uma pequena comunidade rural japonesa é um grande exemplo de tradição e preservação dos costumes e da cultura trazidos pelos imigrantes. Mairiporã, localizada no município de Sertaneja (Norte) foi fundada por Charles Nauffal há 51 anos e chegou a ser um patrimônio.
Com o fim da cultura de café e do algodão, o patrimônio deixou de existir, mas as famílias nikkeys do lugar mantiveram a característica de comunidade, que dispõe inclusive de uma organização: a Associação Cultural e Desportiva de Mairiporã.
Emílio Keitiro Suzuki, 57 anos, é o atual presidente da entidade e comanda 27 famílias. ‘‘Mairiporã já chegou a ter cerca de 50 famílias nipo-brasileiras’’, relembra. Não é, porém, nas atividades coletivas que a tradição e a cultura da comunidade mais aparecem.
‘‘A educação aqui na colônia tem sido rígida para com as crianças e os jovens, no sentido de preservar a cultura e a tradição do Japão. Inclusive o pessoal daqui que tem ido trabalhar no Japão tem sido muito bem recebido lá, justamente por falar bem o japonês e conhecer bem os costumes do país’’, diz o presidente.
Além da rigidez em casa, as crianças frequentam aulas de japonês com o professor Hissamao Mtsuzaki, de Sertaneja, que se dedica à atividade há cerca de 10 anos, como voluntário.
Outra forte tradição em Mairiporã, que no dia 5 realiza o ‘‘undokai’’ (gincana com a participação de toda a família), é a comemoração do Ano Novo. ‘‘No dia 1º de janeiro, fazemos reuniões e cantamos os hinos nacionais do Japão e do Brasil, realizamos a cerimômia do ‘‘omoti’’, apresentamos uma retrospectiva do ano que passou e falamos sobre o que queremos do futuro e depois ficamos batendo papo, o dia todo, comendo ‘‘obentô’’ e bebendo’’.
A família de Emílio foi a primeira a ter um filho formado em medicina, outro em odontologia e o terceiro em ciências da computação. Ele mantém um pesque-pague em sua propriedade rural, mas informa que as culturas predominantes na localidade são a soja e o milho.
PioneirosO único casal de pioneiros vivos de Mairiporã pertence também à família do vice-presidente da associação. Haro e Guenkichi Suzuki, ela com 78 anos e ela com 80 anos, são pais de Emílio e vieram do interior de São Paulo para o Paraná em 1947.
‘‘Eu vim de Guaratinguetá, no Norte de São Paulo. Entrei no Brasil pela Mogiana. Cheguei em Santa Mariana em 1939’’, relata seo Guenkichi. Bem humorado, o pioneiro conta que veio para trabalhar com o café, mas diz que a cultura não o favoreceu.
‘‘Eu cheguei, plantei café e cuidei da lavoura por doze anos. Quando a geada não acabou com tudo e eu consegui colher, entreguei os 120 sacos de café em côco para uma firma e na hora de receber o comprador tinha falido. Sofri muito com a cafeicultura e fui mexer com algodão. Hoje eu crio porco, para não ter de pedir dinheiro ao filho’’.
Guenkichi e Dona Haro puderam visitar o Japão há doze anos, graças a uma rifa que ganharam da Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná, que sorteou uma passagem de ida e volta. O filho custeou a outra passagem e o casal pôde viajar juntos. ‘‘Gastei 58 anos para voltar ao Japão’’, brinca.

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