O sonho de Agnaldo Ribas de Oliveira, 13 anos, é interpretar uma peça do escritor inglês William Shakespeare. Além disso, o jovem estudante da 5ªsérie tem outra vontade. ‘‘Pode colocar aí no jornal que quero muito fazer comercial. Só preciso de uma oportunidade. Escreve que eu sou um gatão’’, diverte-se. O primeiro contato de Agnaldo com o palco foi através do projeto Entrelaçar, para alunos e pais do Instituto Salesiano de Assistência Social de Curitiba, localizado próximo da favela do Parolin. Por meio de aulas de artes plásticas, teatro, dança brasileira, percussão, construção de instrumentos, resgate criativo, coral e artesanato, os alunos ampliam as perspectivas em relação ao futuro e aprendem a valorizar a integração da arte e do meio ambiente.
  A idealizadora do Entrelaçar, a artista plástica Mariela Del Nero, desenvolveu o projeto há quatro anos. No início o Entrelaçar fazia parte de um projeto de lei municipal, que durou um ano. Agora vive através de patrocínio de uma empresa privada de São Paulo. Com esta parceria o Entrelaçar atinge 400 pessoas. Este número pode aumentar caso outras empresas se interessarem por contribuir. ‘‘Não conseguimos atingir todas as crianças. Na oficina de construção de instrumentos tem gente na fila para participar, aguardando as novas turmas. É uma vergonha empresas daqui não patrocinarem o projeto’’, reclama Mariela.
  Os pais das crianças participantes das oficinas também podem fazer aulas de artesanato. Agora a artista plástica tenta apoio da Prefeitura de Curitiba para conseguir uma barraca nas feiras públicas da cidade para que elas possam comercializar os produtos confeccionados.
  No próximo ano Mariela irá iniciar um projeto com catadores de papel. Para isso, a empresa paulista Wilke Zelepel, patrocinadora do Entrelaçar, irá comprar o material coletado diretamente dos catadores. Isso vai eliminar os intermediários no processo de venda e os trabalhadores podem ter lucro maior com o papel. ‘‘Isso vai ser uma guerra. Uma batalha difícil. Os intermediários não irão aceitar, pois ganham muito dinheiro com isso. Mas já estou me preparando’’, explica a organizadora do Entrelaçar.
  O estudante da 4ªsérie Marlon Matheus de Paulo, 9 anos, é um dos alunos da oficina de construção de instrumentos. As aulas são um incentivo para o futuro dele. Em outro curso fez tapetes e agora se concentra na fabricação de um tambor. ‘‘Vou continuar a construir instrumentos quando crescer. Quero trabalhar com isso’’, diz Marlon.
  As aulas da oficina de construção de instrumentos são rigorosas. O professor Nelson Sebastião, que trabalha com educação e arte, fica ao lado dos alunos e chama a atenção se algo sai errado. ‘‘Tem uns que se dedicam mais e acabam ajudando os novatos. Esta é a proposta’’, explica.
  Sebastião passou um mês no Recife para aprender como construir os instrumentos presentes na música das festas tradicionais da região, como o maracatu e a Festa do Divino. Até agora a turma realizou oito encontros para a construção do tambor. Após a pintura, o instrumento passará pelo processo de envernização e em seguida será colocado o couro. Quando estiver finalizado, Sebastião ensinará os alunos a tocar o tambor.
  No final do ano Mariela pretende reunir todos os alunos das diferentes oficinas em uma grande apresentação. A desinibida aluna de teatro Victoria Cristina, 9 anos, conta os dias para isso acontecer. Ela pretende ser bióloga mas não quer deixar o teatro de lado. ‘‘Fui convidada para participar da peça Peter Pan, no Teatro Regina Vogue, para o papel da Sininho. Ainda não está definido se irei participar mesmo’’, diz a feliz Victoria. As peças ensaiadas nas oficinas abordam temas como natureza e reciclagem do lixo.
  Mariela brinca que é conhecida como ‘‘rainha da sucata’’, pois trabalha há alguns anos com reciclagem nas oficinas do projeto. Ela já deu aula em escolas particulares e diz que no Entrelaçar as crianças trabalham de um jeito diferente. ‘‘É um processo lento. Aqui é normal uma criança falar que o irmão do vizinho morreu baleado. Hoje não tem possibilidade de dizer que estes alunos possuem capacidade de competir com os de escolas particulares. Eles não têm estímulo em casa’’, desabafa. O projeto tenta reverter essa situação. Muitas crianças hoje pensam em cursar uma faculdade, fato que nem era cogitado antes de iniciar as oficinas.
  A artista plástica também realiza uma oficina para que alunos de aproximadamente nove anos possam passar pelo processo de alfabetização novamente. ‘‘Há crianças com esta idade que ainda não sabem escrever, mas mesmo assim passam de ano. Com uma turma fiquei dois meses só ensinando a letra A’’.
  O Instituto Salesiano é mantido por uma congregação de padres do Rio Grande do Sul. A entidade atua em diversas regiões do Brasil e tem sua sede na Europa. No instituto de Curitiba as crianças participam de atividades físicas e artísticas e recebem alimentação. Para o projeto Entrelaçar eles cederam o espaço para a realização das oficinas.

SERVIÇO
  Mais informações sobre o projeto Entrelaçar podem ser obtidas pelos telefones 3018-6256 e 9625-6069. O Instituto Salesiano fica na Rua Rio Grande do Sul, 1. 661, na Vila Guaíra.

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