Coração de pai bate forte no peito do agricultor
O semblante preocupado, as mãos inquietas, o andar ansioso de um lado para o outro, a espera estampada nos olhos. Quem já foi pai provavelmente vai se identificar com a imagem do agricultor José Roberto das Neves, 33 anos. Assim ele era visto nos corredores do Hospital da Mulher (Área Central de Londrina), na última quarta-feira, enquanto no centro cirúrgico a esposa dele, Eliane Carmem das Neves, 31, era submetida a uma operação cesariana para trazer ao mundo Wellington Roberto, a segunda criança do casal de Bela Vista do Paraíso (40 km ao norte de Londrina).
A reportagem da Folha acompanhou o ''antes'' e o ''depois'' desse pai em meio à chegada do novo filho, o melhor presente que ele poderia ganhar - com alguns dias de antecipação - neste domingo especial. ''Meu coração está a mil'', revelou José Roberto, uma hora antes do nascimento de Wellington. No pulso do agricultor, a enfermeira mediu 96 batimentos cardíacos por minuto. Em circunstâncias mais tranquilas, a marca ficaria em torno de 80.
Mesmo não sendo pai de primeira viagem - há seis anos nasceu a primeira filha, Laurene - José Roberto não escondeu a ansiedade. ''A gente fica meio preocupado porque é uma cirurgia, e a primeira coisa que espera é que a criança venha com saúde''. Ele é o tipo de pai que fica ''grávido'' junto com a mulher, acompanhando de todas as formas possíveis os nove meses de gestação. ''Não perdi nenhum dos quatros exames de ultrasom. É uma delícia ver o bebê crescendo, escutá-lo enquanto ainda está na barriga da mãe. Ser pai é uma benção de Deus'', definiu.
José Roberto parece fazer juz a essa benção. ''Ele é um pai nota 100'', resumiu Eliane, minutos antes de entrar na sala de cirurgia. O agricultor não pôde assistir ao parto. O privilégio ficou para o fotógrafo Dorico da Silva, que foi autorizado a registrar as imagens do nascimento do bebê.
De acordo com o diretor clínico do Hospital da Mulher, João Fernando Filho, nos últimos anos vários hospitais vêm proibindo os pais de acompanhar o parto cesariano. ''Vários imprevistos vinham ocorrendo, como o caso de um médico veterinário que foi assistir ao parto da esposa num hospital de Londrina e começou a dar palpite no trabalho dos médicos, deixando todos nervosos. Em outra ocasião, o pai desmaiou e fraturou a mandíbula ao cair no chão'', ilustra. A proibição também visa reduzir os riscos de infecção hospitalar.
O diretor recomenda, contudo, que o pai acompanhe a esposa até o hospital e, o que considera ainda mais importante, participe do pré-natal. ''Em muitos pré-natais a gente nem chega a conhecer o pai, porque ele nunca vem junto com a mulher. É uma conduta errada'', avisa.
Na antesala do centro cirúrgico, José Roberto aguardou pelo momento mágico em que uma nova vida passaria pela porta, nos braços da enfermeira. ''É um sentimento que enche o peito. Tem que segurar as lágrimas'', antecipou-se. E ele conseguiu. Quando finalmente chegou a hora, José Roberto juntou as mãos como numa prece e exclamou: ''Benza Deus, coisa mais linda!''. O sorriso de orelha a orelha dispensou comentários. ''Não tenho palavras. É muita emoção''.
Wellington nasceu às 12h33, com 4,26 quilos, 51 centímetros de altura e muita saúde. O tamanho do bebê causou alvoroço no hospital. ''Vocês deram sorte na escolha desse parto para a reportagem. Olha que bebezão bonito para aparecer no jornal'', comentaram as enfermeiras. Desde que conheceu o filho, José Roberto não tirou os olhos dele. Assistiu ao primeiro banho, à colocação da primeira roupa, e se surpreendeu ao vê-lo abrir tão rápido os olhos e chorar tão alto. Quando a equipe de reportagem deixou o hospital, o agricultor estava com o rosto colado no vidro externo do berçário, admirando o quanto é bom ser pai.





