Não há como escapar. A convivência junto a estrangeiros de tantas nacionalidades impõe transformações importantes na sociedade francesa. Ninguém pode afirmar com segurança quem muda quem, porém, é mais do que certo que franceses e estrangeiros tentam se adaptar uns aos outros como podem. Infelizmente, as reservas, que estão lá para todo mundo ver, existem, e de ambos os lados.
Diariamente a imprensa local mostra exemplos de como muitas vezes a convivência é espinhosa. Recentemente, um balanço do trabalho da polícia evidenciou que pessoas de origem estrangeira são as maiores vítimas de interpelações ditas exageradas. Os imigrantes batem o pé contra o que chamam de ''racismo enrustido'', principalmente no que diz respeito a emprego. Alguns franceses, por sua vez, esbravejam contra supostos abusos cometidos por estrangeiros.
Uma professora primária aposentada disse que sobe nas tamancas contra aqueles que se aproveitam dos benefícios do Estado. Ela citou o caso de muitos africanos, de Mali, por exemplo, que vêm para a França com mulher e filhos, logo em seguida se divorciam (só no papel) e retornam ao seu país para buscar mais uma esposa, fazendo esse vai-e-vem três ou quatro vezes. Segundo a ex-professora, ''as mulheres, por serem divorciadas de um cidadão que tem nacionalidade francesa, e a penca de filhos que tiverem com ele, se beneficiam de allocations familiales (pensões da previdência social)''. ''Muitos tentam reproduzir em pleno território francês um quadro tribal, um mini-harém, e isso é inaceitável'', protestou ela, indignada.
Um exemplo de mudança relativa à imigração é a alteração na lei sobre o casamento civil para mulheres, que passou de 15 para 18 anos, tal qual já era para os homens. A razão que levou o Senado no final de março último a alterar a lei é o fenômeno dos casamentos forçados de meninas filhas de imigrantes. Sendo as associações que trabalham pela integração dessas comunidades, existem cerca de 70 mil jovens de 10 a 18 anos ameaçadas de se casarem contra a vontade. O problema é tão grave que o governo pretende introduzir no direito penal uma sanção contra país e responsáveis acusados desse constrangimento ilegal.
A prática atinge mais jovens originárias de Mali, Senegal, Mauritânia, Turquia e países do Magreb. A grande maioria das famílias veio para a França entre os anos 60 e 80. Ao perceberem que as filhas flertam com franceses ou com rapazes de outra nacionalidade, mais do que depressa cortam o mal pela raiz, ou seja, arranjam-lhes logo um matrimônio. Muitas vezes os futuros noivos vêm de fora, e o casamento, para a felicidade deles, assegura-lhes a legalidade. Acontece também de as meninas viajarem em férias para a terra natal e serem forçadas lá mesmo a se casarem com um sujeito que nunca viram mais gordo. De acordo com sociólogos que estudam o fenômeno, o casamento forçado nada tem a ver com o islã.
Não tão grave assim, mas também sintomática das mudanças que se percebem na vida cotidiana, é a diminuição gradual de açougues franceses nas cidades que agrupam mais imigrantes de origem muçulmana. O ofício de açougueiro, que está caindo em desuso entre os franceses, atrai mais e mais os estrangeiros. O problema é que numa casa de carnes cujo proprietário é muçulmano, os clientes encontram de tudo, menos o porco e seus derivados, proscritos pelo islã. (M.B.)

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