Curitiba - Quem passou por uma sala de aula entre a década de 1960 e o início dos anos 1990 pode se lembrar de duas disciplinas já extintas dos currículos escolares. O ensino de Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política Brasileira (OSBP), foi instituído no período da ditadura militar para substituir as aulas de Filosofia e Sociologia nas escolas.
No início de junho, o vice-presidente José Alencar sancionou a lei que torna obrigatório o ensino de Filosofia e Sociologia para as turmas de ensino médio, num processo semelhante ao da implementação das antigas disciplinas ''estadistas''. No Paraná, as duas disciplinas já vinham sendo aplicadas nas escolas e, desde 2004, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) passou a cobrar o conteúdo de filosofia no vestibular.
Segundo a pedagoga e psicopedagoga Denise Weber, ex-professora das disciplinas OSBP e EMC na década de 1980, essas matérias foram adicionadas ao currículo escolar por questões políticas.
''Eram aulas rígidas. Ensinava-se na escola como era a sociedade naquele momento. O conteúdo envolvia ética, regras morais, como se portar, respeito mútuo etc. Mas não existia diálogo em sala de aula'', explica.
Quem teve a disciplina lembra de ser forçado a decorar e cantar os hinos nacionais, organizar desfiles patrióticos e pintar a bandeira. Geovani Viola Moretto relembra que era transmitido ao aluno a idéia de que o Estado era o guardião e tinha a missão de garantir e manter a ordem e a civilidade.
''O ensino defendia um culto à patria e seus símbolos'', conta. Helanderson Carneiro Roseira recorda-se de ter tido as duas disciplinas na 7 série. ''Elas traziam uma valorização forçada do Estado Brasileiro. Era apenas um 'decoreba' de regras e condutas'', conta.
Geovani Moretto e Helanderson Roseira hoje são professores de Filosofia. Roseira ensina alunos a partir da 5 série a questionar e refletir sobre questões básicas do cotidiano.
''O ensino de filosofia para as turmas mais jovens não pode forçar o estudo dos grandes pensadores, mas sim estimular o questionamento. Começamos com a reflexão do que é feio e do que é bonito, do que é o 'bem' e o 'mal', para que a criança avalie o que significa certos conceitos para ela'', explica.
João Pedro de Moraes Santos, aluno do professor Roseira, já gostava do assunto mesmo antes de ter a disciplina, mas agora aprendeu que a filosofia anda junto com a criatividade.
''O professor ensina com humor, mas de um jeito que fica na nossa memória. Aprendi que uma crise pode ser uma coisa boa, porque sempre aprendemos uma lição com ela e isso eu uso muito na minha vida'', conta João Pedro.
O professor Geovani Moretto destaca que o ensino de filosofia nas escolas ''desperta para o comportamento ético, que deve fundamentar a construção do conhecimento''. Para ele, ''o aluno desenvolve um pensamento crítico, questionador''.
Lucas Petrelli, que cursa o 2º ano do ensino médio, acredita que os alunos que têm a disciplina na grade curricular ''se expressam com maior clareza, lêem e escrevem melhor, se interessam mais pelos estudos e questionam mais''.
O coordenador do departamento de Filosofia do Colégio Positivo, Eduardo Emmerick, explica que o objetivo da disciplina não é transformar os alunos em filósofos.
''Também não queremos que seja uma aula de debate e que as discussões fiquem na base da opinião, mas sim que o aluno compreenda o que é ensinado e passe a pensar com uma base teórica dos grandes pensadores'', conclui.

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