Contador de Histórias
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sexta-feira, 08 de fevereiro de 2008
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Aos 85 anos, o poeta e autor de ficção científica André Carneiro, está entre aqueles artistas brasileiros que vêem sua obra ser mais celebrada no exterior que em seu próprio país. Em contrapartida, no ano passado, seu quarto livro de contos Confissões do Inexplicável ganhou as prateleiras nacionais, publicado pela editora Devir. Há seis anos morando em Curitiba, Carneiro ministra na capital paranaense oficinas de produção literária nas quais incentiva novos escritores a percorrerem o caminho das letras. Em entrevista à FOLHA, o autor de Piscina Livre e Amorquia (romances), Ângulo e face, Espaçopleno, Pássaros florescem e Quânticos da Incerteza (poesia), Diário da nave perdida e O homem que adivinhava (contos), além de Introdução ao estudo da science-fiction, entre outros, pede ao público brasileiro que sua obra seja lida.
Folha de Londrina Embora sua obra de ficção científica seja referência internacional na literatura do gênero, você diz que no Brasil é mais conhecido por sua produção em poesia. A que isso se deve?
André Carneiro Há muito preconceito no Brasil (com relação à ficção científica). Felizmente a poesia é o gênero literário mais ambicioso e dá mais prestígio àquele que consegue uma posição que é dada pela crítica, é dada pelo tempo.
Folha Até que ponto sua literatura em ficção científica o ajudou a transcender passagens da sua vida, como a perseguição pelo regime militar?
Carneiro Eu, afinal de contas, era um pacífico comerciante de ferragens em Atibaia e de repente eu tenho que fugir, trocar de nome, entrar em meios e viver em lugares que eu nunca vivi, ir para o estrangeiro, coisas assim. Isso tudo abala a vida da gente completamente. E esse abalo foi muito interessante porque são experiências que, algumas delas ou todas elas, de alguma maneira foram transformadas em personagens e histórias. Eu acabei de vender há um ano os direitos de um dos contos mais publicados meus. Eu vendi para um cineasta espanhol. Ele está fazendo um filme que aqui no Brasil se chamará Escuridão. Tomara que o filme saia bom. Aqui no Brasil já foi feito um estrelado pelo Nuno Leal Maia e a Mírian Rios. Mas saiu um filme meio artístico, ele não teve uma repercussão pública muito grande. Aliás, repercussão pública muito grande nesse país significa porcaria, né.
Folha - Como se chamava o filme?
Carneiro Saiu como Alguém. Depois mudaram o nome, aí não me lembro bem. Ele tem uma fotografia lindíssima. Foi feito pela Embrafilme.
Folha - Como você avalia a produção literária brasileira atual?
Carneiro Uma vez eu fiz uma pergunta para o Graciliano Ramos. Eu era um cara inocente. O Graciliano não dava entrevista para ninguém por causa de questões políticas, etc. Mas eu viajei de São Paulo, de Atibaia, até o Rio de Janeiro, e consegui ir na casa dele. E minha primeira pergunta foi essa: Por que a literatura brasileira não tem repercussão no exterior? Ele falou: Porque não presta. Isso eu publiquei no meu jornal literário. Eu tive um jornal que foi apresentado pelo Oswald de Andrade, eu era amigo dele. Eu tive um jornal que teve grande repercussão naquela época. Esse jornal foi reproduzido em fac-simile no ano passado pela Secretaria de Cultura de São Paulo.
Folha - Isso que o Graciliano Ramos falou para você naquela época ainda vale?
Carneiro - Vale. A literatura brasileira é vítima da política brasileira desde o tempo de Dom Pedro. A oligarquia, o domínio das classes aqui no Brasil sempre pugnou por um povo analfabeto que era manobrado, e é manobrado até hoje até um certo ponto, possibilitando que a direção política desse país fosse aquilo que tem sido até bem pouco tempo. Essa reviravolta do Lula é o primeiro esforço, assim, em que o povo começa a perceber que pode tomar parte na direção de um país. Se a gente for ver a política didática de outros países, mesmo países como o Paraguai, considerados atrasados, são muito mais eficientes. E há índices de escritores de repercussão mundial, por exemplo, mais na Argentina do que no Brasil. Buenos Aires tem muito mais livrarias que o Brasil inteiro. O motivo é esse.
Folha Que autor brasileiro mereceria um reconhecimento maior?
Carneiro Seria difícil apontar porque, a porcentagem de injustiça de cada um ou a posição em que cada um trabalha, qualquer um que eu diga eu estou lidando com colegas aí que disputam o mesmo público que eu procuro que seja leitor. Aí é um problema da universidade também. A universidade brasileira é fechada em sim mesma, não participa de coisa nenhuma, não patrocina coisa nenhuma. A gente não vê nada de cultura literária que seja fruto de uma atividade acadêmica. Ou pelo menos a porcentagem do que eles fazem é insignificante.
Folha Ainda assim, vale a pena escrever?
Carneiro (risos) Escrever é uma vocação. O sujeito que é artista nunca pergunta se vale a pena porque ele cai naquilo como o sujeito que é apaixonado por uma mulher. Interessa pouco para o sujeito apaixonado quais as qualidades ou defeitos que ela tem. O artista se dedica porque é a finalidade da vida dele. Eu me realizo como escritor sem me importar com aquilo que rodeia o assunto, como o aspecto comercial, por exemplo. Nem em agradar o grande público, porque agradar o grande público no Brasil é escrever porcaria, né.
Folha Como você avalia a produção de arte em Curitiba?
Carneiro - Acho melhor não falar de Curitiba. Eu não vou falar nada porque já se fala muito de Curitiba. Teve um crítico chamada Agripino Grieco, ele era um grande crítico, morreu na metade do século passado. Os curitibanos odiavam ele porque perguntaram a ele uma vez exatamente essa pergunta que você fez e ele respondeu: Curitiba é a terra do Emiliano e outros pernetas.
Folha E como é ministrar a oficina literária?
Carneiro A oficina literária é o método mais moderno, mais dinâmico, mais tecnológico, no sentido de eficiência, que existe hoje em dia para aperfeiçoar um escritor. Não só o escritor mas qualquer artista. As pessoas num espaço de tempo muito rápido aperfeiçoam a capacidade e o
estilo de maneira extraordinária.
Folha Qual autor brasileiro você recomendaria para o leitor?
Carneiro Eu peço
o favor que me leiam, né. Porque, francamente,
se formos colocar prestígio e posição, me agrada muito a posição que eu tenho.
Mas leitores são
poucos porque se lê pouquíssimo no Brasil, pouquíssimo.
Então quem está precisando mesmo sou eu, por favor.


