Não importa a idade, todos estão sujeitos ao bombardeio da publicidade e todo o tipo de artimanha usados para estimular o consumo de mais e mais produtos. Mas quanto antes tem início o debate sobre as motivações e consequências do consumo desenfreado maiores são as chances de resistir aos apelos da indústria da propaganda ou mesmo de evitar o desperdício. É o que têm observado professores, pais e os próprios alunos de escolas de Curitiba nas quais tudo o que é consumido passa por uma avaliação conjunta.
Mãe de Gabriel, de 7 anos, Gianna Paula Soares diz que o trabalho de conscientização desenvolvido na escola do filho funciona como um apoio para o que acontece em casa. ''Eu e meu marido praticamos um consumo crítico e o que é mostrado na escola dá apoio na hora de dizer um não. Colabora com a forma como a gente procura conduzir a nossa família'', avalia Gianna. A mãe afirma que não é radical mas valoriza a reflexão. ''Não é não consumir mas é poder parar para pensar antes. Se não pára um pouquinho, a cada lançamento do cinema você compra uma batelada de coisas. Desde pequeno a gente tenta mostrar alternativas de lazer que não sejam o consumo'', explica.
Gabriel estuda na escola Trilhas, que realizou recentemente o 3º Simpósio Criança, Mídia e Consumo. A partir desse debate, outros temas como a preservação do meio ambiente e alimentação mais saudável também acabam sendo lembrados, comenta a mãe. Ao final do encontro, cada família de aluno recebeu da escola uma sacola de pano para as compras no supermercado. O objetivo é reduzir a circulação de sacolas plásticas e oferecer uma oportunidade de geração de renda para quem precisa.
Feitas de algodão cru, as sacolas foram produzidas pela cooperativa Coopercostura, criada em 2001, e que reúne 20 mulheres carentes com idade acima de 60 anos do bairro Vila Verde, na Cidade Industrial de Curitiba. ''Eu não sei até que ponto fazer a sua parte vai fazer grande diferença no sistema, mas você como cidadão faz o que pode. Individualmente faz uma diferença muito grande para estar em paz como você mesmo e não ficar refém do consumo'', observa Gianna.
Avaliar constantemente o que é apresentado como padrão é uma forma de estimular nas crianças o questionamento do valor de verdade das coisas, explica a psicanalista e assessora educacional Ana Claudia Navarro Lins. ''Quando você mostra que há várias versões sobre o mesmo tema e você ensina a pensar sobre qualquer assunto. Independente do tema, você vai longe com as crianças'', afirma. A partir daí, segundo Ana Claudia, as próprias crianças passam a questionar propagandas que têm como mote expressões do tipo ''beba'' ou ''compre''. ''Elas percebem que têm mais do que uma opção, que não precisam seguir o que o ideal social coloca como sucesso'', justifica.
De acordo com a psicanalista, a criança também passa a ser referência para os pais e mais tarde essa vivência será resgatada durante a vida adulta. ''É algo que a criança viveu que faz sentido para ela. Elas internalizam alguns valores que independe do pai e da mãe. Elas podem botar algo novo na rotina familiar e colocar também as famílias para pensar''.

mockup