O Norte do Estado enfrentou uma grande estiagem no início do ano passado. Em Londrina, a imprensa chegou a noticiar um ambiente nebuloso, às margens do Complexo Igapó. Pelas manhãs e ao final das tardes, uma neblina tomava conta de toda a região, incomodando moradores e pedestres que usam o local para caminhadas, uma atividade pouco recomendada em ambientes insalubres como o que era encontrado à epoca.
''A neblina da qual os moradores reclamavam era gerada pelas queimadas urbanas em Londrina'', garante o comandante do Corpo de Bombeiros, Ricardo Jammes Teixeira. ''Percebia-se uma névoa difícil de se dissipar. Era, na verdade, fumaça'', detalha.
E a gravidade do problema não se resume ao incômodo gerado à visão. Além dos riscos oferecidos à saúde, as queimadas afetam também a segurança nas rodovias e interferem até em processos de erosão e assoreamento de lagos e rios.
Os incêndios são fenômenos cíclicos que, segundo o comandante da Polícia Florestal de Londrina, Hilberaldi Correia de Lima, se intensificam entre junho e setembro. Com o frio, o ressecamento das plantas se acelera e isso facilita a queima de material orgânico. Coincidentemente, no mesmo período, pessoas mais sensíveis a variações de temperatura, como crianças e idosos, inflam as filas de atendimento nos postos de saúde da cidade, em busca de tratamento contra doenças respiratórias.
Dados do Ministério da Saúde dão conta de que pacientes de asma, bronquite, sinusites e alergias têm os problemas agravados no contato com fumaça. A informação, se não ajuda precisamente a quantificar o número de pessoas afetadas pelo problema das queimadas, dá uma idéia do que os incêndios urbanos podem provocar. ''Durante o inverno, a demanda por atendimento a algum tipo de doença respiratória no Pronto Atendimento Infantil (PAI) de Londrina aumenta 30%. Não sabemos quantificar qual parcela deste percentual vem ao posto devido a problemas provocados por fumaça. Mas, certamente, é um fator que deve ter influência'', destaca a coordenadora do PAI, Vera Lúcia Roncaratti.
Acidentes Nas estradas, o problema é mais evidente. Como a maior parte das propriedades rurais da região abrigam plantações de cana-de-açúcar, e queimada realizada à beira de rodovias é uma prática comum, que coloca em riscos os usuários da via em questão. A visibilidade torna-se nula, dependendo da intensidade do fogo. ''Não fazemos um controle da quantidade de acidentes provocados pela falta de visibilidade, mas o número de incêndios às margens das rodovias na nossa região é realmente grande'', diz o comandante da 2 Companhia de Polícia Rodoviária do Paraná, Capitão Sérgio Dalben.
''Lembro-me claramente de um acidente grave ocorrido em Apucarana (Centro-Norte do Estado) no ano passado, provocado pela falta de visibilidade em decorrência de fumaça'', cita o capitão. ''E nem adianta usar faróis de neblina. Este tipo de fumaça não permite o menor grau de visibilidade'', teoriza, lembrando ainda que não é só a visão que fica prejudicada. ''Geralmente, o motorista tenta fechar a janela quando passa por um foco de incêndio. Se ele não fecha, corre o risco de ter a garganta ou os olhos irritados. Em ambos os casos, isso tira a atenção da estrada, o que também pode provocar acidentes''.
Reservas naturais de água, como rios, córregos ou lagos, também são afetados indiretamente pelos efeitos das queimadas. Depois de fazer um dos maiores levantamentos sobre o processo de assoreamento do Complexo Igapó, o assessor de recursos hídricos da Secretaria Municipal do Ambiente, João Batista, revelou pelo menos 400 fotos que identificam pontos de incêndio que podem gerar problemas para mananciais de Londrina. ''A queimada deixa o solo desprotegido. Isso facilita processos como o de erosão e assoreamento, já que a terra pode ser facilmente arrastada para fundos de lagos, como no caso do Igapó'', explica Batista. (A.M.)

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