Na pequena sala de aula, Victória Ramos, 10 anos, divide o espaço com Bruno e Cleiton, ambos de 8 anos. Ouvidos atentos, o trio mergulha no universo lúdico. O silêncio só é interrompido por gargalhadas e poucas perguntas sobre os objetos mágicos da literatura. A vassoura da bruxa e o tapete que voam, a lâmpada do gênio, o caldeirão de onde sai qualquer coisa que desejar. Muito envolvente, o professor Luiz César Trevisan prende o interesse dos alunos com a contação de histórias. "Basta esfregar a lâmpada e quando o gênio aparecer peça o que quiser", incentiva ele.
Os três ficam ansiosos. São muitos os pedidos. Ser jogador de futebol - melhor do que o Ronaldinho Gaúcho -, acabar com a fome e a miséria do mundo, ganhar muito dinheiro. Enquanto interagem e os ouvidos ficam atentos, os dedinhos das crianças são ainda mais inquietos e buscam, paralelamente, mais informação. Através do tato, os três pequenos leem o Braille com muita destreza no livro de Língua Portuguesa, enquanto acompanham a história contada pelo professor.
Alunos da terceira série da Escola de Educação Especial Professor Osny Macedo Saldanha - Ensino Fundamental, eles foram alfabetizados no primeiro ano de colégio. "Não achei difícil. O Braille é a escrita dos cegos. Gosto de estudar e aprender. É melhor viver assim", disse a falante garotinha, que manuseia com muita habilidade a reglete e o punção (para fazer os relevos no papel) e o sorobã (espécie de ábaco), instrumentos para escrita e cálculo da pessoa cega.
Os alunos também sabem usar a máquina de escrever em Braille da escola, mas a reglete acaba sendo mais acessível para a pessoa cega. A última custa cerca de R$ 60,00, enquanto que para comprar uma máquina de escrever, que só existe importada, é preciso desembolsar R$ 3 mil. "Gosto de ler histórias, mas prefiro Matemática e Ciências. Pode me perguntar a tabuada que eu respondo", desafia Victória, contando que enxerga cores e luzes. "Adoro laranja, verde, marrom, prata, dourado e caramelo", elenca.
A Escola de Educação Especial, mantida pelo Instituto Paranaense de Cegos - é a única de ensino regular no Estado -, cumpre 800 horas anuais e 200 dias letivos. Lá estão matriculados 26 crianças no Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano) regular, que estudam no período da manhã, e à tarde participam de atividades esportivas, aulas de música e dança, além de reforço escolar. À tarde, funciona no colégio um centro de atendimento de apoio à escolaridade que oferece aulas de Braille e sorobã, orientação e mobilidade para 102 jovens e adultos cegos.
Engana-se, quem acredita que a alfabetização na escrita Braille é um processo moroso. "O aprendizado da criança deficiente visual não é mais lento. A criança que nasce cega e é estimulada, desde pequena, pela família tem mais facilidade no aprendizado. Os pais devem encorajar a criança cega a engatinhar, a andar, a explorar brinquedos e objetos, a identificar ruídos. Pela necessidade, ela vai desenvolver o olfato, a audição e o tato", informa a diretora da Escola Especial, Mônica Adriana Alves.
"Dessa forma, a criança cega tem as mesmas possibilidades de aprendizado que uma criança que enxerga e pode ser alfabetizada em até um semestre, aprendendo o Braille e noções numéricas e de quantidade", esclarece ela, dizendo que o colégio utiliza brinquedos e jogos comuns para estimular os alunos, como bonecas, quebra-cabeça e jogos de encaixe. Caso a criança não tenha tido essa vivência na primeira infância, a alfabetização pode demorar até um ano e meio, segundo Alves.
O estabelecimento de ensino - que ainda recebe crianças cegas com outras deficiências, como a intelectual, exceto surdas - atua com 15 professores, dos quais quatro são deficientes visuais. Todos são graduados e possuem pós-graduação em educação especial ou foram capacitados para lidar com esse público.

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