Curitibano radicado no Rio de Janeiro desde a década de 70, o jornalista Toninho Vaz, 61, abraçou de vez a carreira de escritor. Autor das biografias dos poetas Paulo Leminski e Torquato Neto, ele acaba de lançar um novo trabalho do gênero. O título, quilométrico, diz tudo: "O Rei do Cinema - A Extraordinária História de Luiz Severiano Ribeiro, o Homem que Multiplicava e Dividia".
Morto em 1974, aos 88 anos, o cearense Ribeiro é um daqueles personagens cativantes e polêmicos. Ao mesmo tempo em que erguia um verdadeiro império cinematográfico (comandava uma cadeia de salas de exibição e a produtora Atlântida, famosa por suas chanchadas), era acusado de manter um cartel.
"Mas se ele fosse vivo hoje, certamente seria considerado um grande empresário", garante Vaz, cujo currículo inclui passagens nos jornais locais Diário do Paraná e Diário da Tarde e nas emissoras Bandeirantes, SBT e Globo. Em entrevista à FOLHA, por telefone, o jornalista falou sobre seu biografado, o próximo projeto e revelou: mesmo à distância, continua um curitibano incorrigível.

FOLHA - Como surgiu o projeto de O Rei do Cinema?
TONINHO VAZ - Um amigo meu, videomaker, estava trabalhando na recuperação do acervo da Atlântida e me pediu para dar umas opiniões. Acabei me envolvendo com o projeto e fui chamado para escrever um livro institucional sobre os 90 anos do Grupo Severiano Ribeiro. Mas ali não havia nenhuma passagem polêmica. Aproveitei que o acervo da família foi todo aberto para mim e resolvi me aprofundar. Surgiu então O Rei do Cinema, que tem quase o mesmo conteúdo do primeiro livro, porém com um tom mais crítico.

FOLHA - Como a família Ribeiro reagiu à biografia?
VAZ - Na assinatura do contrato, eu já avisei que esse livro seria mais autoral. É uma família honesta, que entendeu que eu tenho um "nome a lazer", como diria o Chico Anysio (risos). Na verdade, eles sempre foram alvo de críticas por parte da imprensa. Tomaram muita porrada dos jornalistas culturais da época, que os acusavam de sustentar um cartel. O (cronista) Sérgio Porto, por exemplo, chegou a acusar o grupo de querer transformar o cinema numa indústria. Hoje, essa é uma das metas do Ministério da Cultura.

FOLHA - O que mais o impressiona na personalidade de Luiz Severiano?
VAZ - O fato de não embolsar os lucros, de não pegar o dinheiro e sair curtindo por aí. Ele reinvestia tudo, abria novas salas. O tesão dele não era o cinema, e sim ter negócios bem-sucedidos. Aliás, o Severiano não gostava de cinema e nunca foi visto dentro de uma sala. Só do lado de fora, conferindo a bilheteria.

FOLHA - O Grupo Severiano Ribeiro se adaptou aos novos tempos e hoje disputa o mercado dos cinemas de shopping. Como você vê essa transição?
VAZ - O grupo possui hoje a segunda maior cadeia de cinemas do País, com 210 salas. Só perde para a rede Cinemark, que tem quase o triplo. Mas, chegou a ter 77 salas nos anos 40 e 50, algumas delas com mais de 1.500 lugares. Apenas uma sala dessas tinha a capacidade de um multiplex inteiro. Quanto aos cinemas de shopping, eles são um reflexo da violência nas ruas. Oferecem conforto e segurança para as famílias, que nem precisam sair dali para comer, pois há uma praça de alimentação logo na saída da sala.

FOLHA - E o próximo projeto de livro?
VAZ - Já tenho um livro pronto, que deve ser lançado no começo de 2009 e vai me tirar, de uma vez por todas, do gueto curitibano, do gueto da poesia maldita. É sobre o Solar Fossa (conhecido casarão da zona sul carioca que reunia, nos anos 60 e 70, um batalhão de artistas e intelectuais: Caetano Veloso, Paulo Coelho, Tim Maia, Paulinho da Viola, Arnaldo Jabor, etc.). Tenho certeza que esse livro vai fazer o maior sucesso, pois a grande maioria dos personagens está viva e realizada. É uma história com final feliz.

FOLHA - Gueto curitibano? Mesmo depois de mais de 30 anos morando fora?
VAZ - Estou exagerando um pouco, claro, até porque já vivi mais tempo no Rio do que em Curitiba. Mas, além do sotaque, ainda guardo uma certa identidade curitibana. Acho que continuo tratando a realidade sem muita fantasia, aquela coisa cética do imigrante. Apesar de ter sobrenome português, minha mãe é Bley, de origem alemã. O curitibano é voltado para o trabalho e só precisa do básico, do mínimo para sobreviver. Também sou assim. Comigo não tem essa de fashion. Uso sandália, bermuda e camiseta sem marca.

FOLHA - Você escreveu a biografia do Paulo Leminski. Como avalia o reconhecimento da obra dele fora de Curitiba?
VAZ - Fico muito feliz em dar essa resposta, pois trago uma novidade para você. Faço palestras sobre ele e, nos últimos três anos, tenho percebido que o público interessado deixou de ser formado pelas "viúvas do Leminski". No lugar dos drogados e biriteiros de sempre, há uma nova geração querendo saber se ele tem mesmo conteúdo, se não é só uma figura folclórica. E o melhor de tudo é que, sim, ele tem um grande conteúdo e está próximo de ser reconhecido também pela academia.

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