São Paulo - Para muita gente, a imagem de um antropólogo remete à visão de um pesquisador enfiado no meio da Amazônia, às voltas com culturas indígenas pouco conhecidas. Não deixa de ser verdade, e grandes estudos surgiram exatamente dessa maneira.
Mas a antropóloga norte-americana Heather Horst, de 33 anos, preferiu se embrenhar por uma trilha bem menos comum em sua área. Ela estuda a influência das novas tecnologias nas sociedades atuais. Seu mais recente trabalho, desenvolvido em conjunto com o pesquisador Daniel Miller, analisou as mudanças que a chegada do celular causou em um país em desenvolvimento - no caso, a Jamaica.
Entendendo a globalização
''Famosos antropólogos estiveram em regiões como a do Xingu, no Brasil'', lembra Heather. ''Eu não queria fazer isso. Meu interesse era na globalização e em entender o que estava acontecendo ao redor do mundo por causa desse processo.'' Apesar dos altos índices de pobreza, a população do país caribenho aderiu em massa aos telefones móveis.
No fim de 2004, oito entre cada dez jamaicanos tinham um telefone móvel. Vale a pena fazer um comparativo: no Brasil, onde a mobilidade também foi adotada em larga escala, estatísticas recentes mostram que os aparelhos estão nas mãos de cinco entre cada dez pessoas.
O estudo de Heather e Miller transformou-se no livro ''The Cell Phone - An Anthropology of Communication'' (''O Telefone Celular - Uma Antropologia da Comunicação''), lançado nos Estados Unidos.
A explosão dos celulares na Jamaica deve-se em grande parte à compra dos telefones móveis pelas famílias de baixa renda, grupo analisado pela pesquisa. ''A área que estudamos era uma das mais pobres, localizada no centro do país'', destaca a antropóloga. ''Fizemos visitas domiciliares, entrevistamos várias pessoas e, depois de um tempo, descobrimos que ainda não tínhamos encontrado nenhuma casa sem celular.''
Sem comida, mas com celular
Os dois estudiosos decidiram procurar mais. Seguiram por um caminho tortuoso e sujo até chegarem a uma residência extremamente carente. ''Eles não tinham comida, não tinham nada'', conta Heather. ''Aí, pensamos: Finalmente achamos uma casa sem telefone móvel.'' Bastou uma pergunta para que descobrissem que estavam enganados. A filha dos proprietários havia comprado um aparelho na semana anterior.
Situação parecida ocorre em áreas bem pobres do Brasil. O que leva a população carente, tanto aqui como no Caribe, a gastar com esses equipamentos o pouco dinheiro que tem? Heather descobriu que os jamaicanos adotavam o telefone móvel porque, com ele, sentiam-se conectados ao resto do planeta. ''As pessoas querem ser parte do mundo globalizado'', diz. ''Não podiam fazer muita coisa com ele, mas era o símbolo da sua conectividade.''
A confirmação desse comportamento veio com uma análise do uso dos celulares. Assim como aqui, a maioria dos modelos por lá tem plano pré-pago. ''Descobrimos que a maioria das chamadas era assim: 'Alô! Tudo bem com você? Certo. Até mais.''', afirma. ''Estavam ligando apenas para se conectar a alguém.'' Um garoto de 17 anos, por exemplo, telefonou para 135 dos seus 180 contatos em apenas duas semanas. ''Seria impossível visitar tanta gente fisicamente'', observa. Nem por isso o contato no mundo real diminuiu.
Pedir dinheiro
Os antropólogos descobriram ainda que os celulares começaram a ajudar na redistribuição de dinheiro entre as famílias. ''As pessoas não estavam limitadas a gastar os recursos obtidos apenas com o trabalho local'', explica. Agora, alguém podia facilmente ligar para um familiar ou amigo de outra cidade ou do exterior e pedir uma quantia emprestada.
A Jamaica, aliás, tem um longo histórico de migrações para o exterior. Muitos adultos vão trabalhar em outros países e só retornam décadas mais tarde. A difusão do celular teve um impacto e tanto ao facilitar o contato entre esses familiares distantes, que se tornou mais frequente. Antes, a população dependia das escassas linhas fixas e de telefones públicos. ''A comunicação chegou para os que realmente precisam'', diz Heather.

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