Concorrência do barulho
A Rua XV de Novembro, além do vai e vem de pedestres e de quem só fica ali vendo a vida passar, tem seus ruídos peculiares. Quem nunca ouviu o estridente enunciado ''olha a cobra, borboleta 13, corre hoje'' da vendedora de bilhetes da loteria? Ela fica na esquina da Monsenhor Celso. Não tivemos o privilégio de encontrar durante nossa via sacra, a figura tradicional do calçadão que, ao longo dos anos, ganhou concorrentes, que usam a potência vocal como instrumento de trabalho.
O locutor comercial Leão Brasil é um deles. ''Leão Brasil é meu nome. Está aqui o meu crachá'', anuncia ele, exibindo uma placa verde-amarela nada discreta pendurada ao pescoço. O porte físico franzino destoa com a voz que ecoa por toda a quadra. Ainda estamos entre as ruas Riachuelo e Monsenhor Celso. Entre um anúncio e outro da loja de celulares para a qual está trabalhando no momento, nosso personagem conta sua experiência profissional. ''Já trabalhei para lojas de shoppings (ali mesmo na Rua XV), fui garçom, promotor de eventos, gerente de churrascaria'', disparou o locutor hiperativo.
Leão Brasil gosta de trabalhar na Rua XV de Novembro, mas reclama da falta de segurança, apresentando sugestões do que poderia ser melhorado. ''Deveriam colocar mais guardas municipais, inclusive, à paisana, e mais umas 20 câmeras pelo centro da cidade'', apontou.
Alguns passos adiante, encontramos outro ponto tradicional da Rua das Flores: o Café Senadinho, que fica um pouco depois do cruzamento com a Rua Monsenhor Celso, antes de chegar na Avenida Marechal Floriano Peixoto. Os donos não são encontrados para contar a história do estabelecimento, mas me lembro que o lugar já existia, há uns 20 anos, quando passava por ali, em direção ao cursinho.
Encontramos o empresário Renato Strobel, que se diz fiel frequentador do café. ''Venho quase todos os dias. É parada obrigatória, depois de ir aos bancos'', contou. ''Eu me lembro quando ainda passava carro pela XV. No começo, a população não aprovou muito a idéia, mas acho que hoje não tem quem não goste (do calçadão)'', afirmou ele, contrariando a opinião de nossa outra personagem, a dona Dair Terzado, da Confeitaria das Famílias, que acredita que a rua perdeu seu glamour de outrora. (A.L.)





