São Paulo - A convite da reportagem, Claudia Matarazzo (consultora de etiqueta e autora de livros sobre o assunto), Manu Carvalho (stylist e consultora de moda) e Maria Prata (editora de moda da revista Vogue Brasil) reuniram-se para discutir ''o que é ser chique nos dias de hoje''.

Após minutos juntas, sugeriram, educadamente, que o termo ''chique'' fosse substituído por ''elegante''. Segundo o trio, ''chique'', ou mesmo ''chic'', pode ficar ótimo em outros idiomas, mas não no português. Conheça as opiniões dessas elegantes (e modernas) consultoras de etiqueta sobre a relação do e-mail, do celular, do dinheiro, da moda, do luxo, ''do que a mamãe ensinou'', da saúde (isso mesmo!), dos livros de etiqueta e outros itens mais com a ''elegância contemporânea''.

Elegância e dinheiro

É preciso ter ou gastar dinheiro para ser elegante?Manu - Não. Ser elegante tem a ver com a alma, com a postura diante da vida, do mundo, e com a postura de corpo também.
Maria - De jeito nenhum. Elegância é muito mais ligada aos bens internos do que aos materiais. Está ligada a valores, ao jeito como a pessoa encara e lida com o mundo, e não com a bolsa que ela tem, a roupa ou o carro. Aliás, é o contrário, acho que isso (símbolos de status) pode destruir uma pessoa que até poderia vir a ser elegante.
Claudia - Acho que o grande desafio hoje é ser elegante sem esse consumo. Então, é claro que quem é naturalmente elegante consegue isso. Uma coisa é ser rico, ter dinheiro, e outra é ser elegante.

Como identificar

Como é possível identificar essa pessoa naturalmente elegante? Quais são os signos, os hábitos, a postura que acusam elegância?
Claudia - Elegância passa necessariamente por discrição. Uma pessoa elegante não é gritalhona ou bufona. É discreta. Conhece-se muito bem. A partir do momento em que a pessoa reconhece suas limitações e seus objetivos, consegue ter uma harmonia interior que se reflete na maneira como se conduz na vida.
Manu - Concordo. E, falando de signos, observo que as pessoas com essa qualidade (a elegância) tratam-se bem e tratam bem os outros, indo de A a Z. Às vezes, encontramos pessoas tão elegantes com a gente, mas com os nossos assistentes nem tanto.
Maria - A maneira de tratar um garçom, para mim, é o que acusa ou não elegância. Meu pai está longe do que os padrões dizem ser elegante: é ex-hippie, adora boteco, fala palavrão até não poder mais, fala de mulher também, mas me ensinou isso desde pequena. Falava: ''Filha, olhe nos olhos dos garçons''. Ele me ensinou a tratar todos bem. Acho que elegância é entender e respeitar o outro e tratar todos da mesma maneira.

Definições elegantes

Pelo que vocês disseram até agora, aquele comentário ''nossa, como você está elegante'' não diz nada?
Manu - Mais ou menos. Porque existe a estética elegante. Quando uma pessoa diz isso, refere-se a detalhes visuais, a peças (de roupas) que a colocaram nessa condição estética. São peças clean, minimalistas, que ficam harmônicas, proporcionais. Normalmente, de cores escuras, que ''emagrecem'' e mostram melhor o corte da roupa. Os tons escuros impõem respeito, e isso também resulta em elegância. E são peças discretas.
Maria - É, a coisa da discrição tem muito a ver com elegância. Vale tanto para a roupa que a pessoa usa quanto para a casa onde mora, o carro que tem...
Manu - E tem a ver com educação! Discrição não é ''não dizer aquilo naquela hora''. Discrição está em detalhes. É não perguntar àquele casal quando vão se casar, nem perguntar quando terão o filho depois que se casarem. Enfim, elegância é cuidar da sua vida.
Claudia - Cuidar da própria vida é fun-da-men-tal. Se as pessoas apenas cuidassem da sua vida, o mundo melhoraria muito em termos de elegância. (risos)

Estar na moda não ajuda

Quem se veste conforme as tendências da moda é elegante?
Claudia - De jeito nenhum.
Maria - Isso não garante elegância. O pessoal que trabalha com moda, principalmente, é contra quem se veste ''com a tendência do momento''. Mas acho que há dois lados. Tem gente que consegue usar a tendência certa, na hora certa, e ficar super elegante. E há aquelas pessoas que acham que devem usar a tendência e se perdem, porque não tem a ver com elas. Daí não funciona, fica deselegante.
Manu - Há duas coisas: a moda e a atitude. Dificilmente uma pessoa vai estar elegante se estiver na fissura de buscar alguma coisa que está fora dela.
Claudia - Acho esta atitude de querer estar sempre na moda sinal de uma grande insegurança. Acho que quem está sempre seguindo as tendências não está olhando para dentro, mas sim para fora. A exceção é essa pessoa que a Maria citou, que consegue pinçar uma tendência e adequar ao próprio estilo. Mas a vítima da moda não consegue ser elegante porque acaba pisando na bola, já que ninguém fica bem com tudo.

O tempo não conta

O que é ser elegante aos 20, mas não é aos 40, ou aos 60 anos de idade?
Manu - Elegância não é atemporal?
Claudia - Não. Visualmente tem muita coisa que aos 18 é elegante, ou que você pode aos 20, e aos 40 não pode mais, e é impossível aos 60. Como, por exemplo, barriga de fora.
Manu - Mas barriga de fora não é elegante nem aos 20...
Claudia - Mas até os 18 pode ser bonitinho.
Manu - Não sei se a minha cabeça é mais aberta do que deveria, mas acho que hoje, tendemos a quebrar algumas regras como esta. Tem certas coisas relativas. Como a Costanza (Pascolato) nos mostrou que uma mulher na idade dela - se tiver um corpo bom e controle do que está fazendo - pode usar até minissaia. Penso que tudo pode, desde que seja equilibrado.
Claudia- Na dose certa, com discrição.
Maria - E aí volta àquele começo de que elegância está muito mais ligada ao jeito que se faz as coisas do que ao que se faz ou porquê se faz. A elegância está dentro da pessoa.

Nada de conceitos rígidos

Quais os hábitos e costumes que já foram elegantes, mas hoje não são mais?
Claudia - Acho que existem coisas que saíram de moda, que caíram em desuso, como ligar no dia seguinte de festas, reuniões sociais, para agradecer. Ninguém mais faz isso.
Manu - Mas não trocamos essa ligação pelo e-mail?
Claudia - Vocês são meninas elegantes.
Maria - Economiza tempo e é mais discreto. A tecnologia traz novas dúvidas, mas também possibilidades. Me aflige muito esta história de regras: ''você tem que fazer assim porque é elegante'', ''não faça mais assim porque não é elegante.'' Acho que há pessoas que quebram as regras e são super elegantes no seu próprio jeito... É um carinho aqui, um cuidado ali, e não o jeito como se pega no garfo.
Claudia - Defendendo os dez livros sobre o assunto (regras de etiqueta) que escrevi, digo que quem não conhece as regras básicas não sabe onde quebrar. (risos)
Maria - Concordo, mas me aflige muito a pessoa olhar para o outro com aquela cara de ''nossa, esse aí não sabe como fazer.'' Não sigo regras. Sei o que meus pais me ensinaram, o que fazer à mesa, mas não sigo regras. Minha mãe me falava muito: ''Filha, coma direito'', e eu pensava: ''Ai, que saco'' e ela: ''É só para você saber o que fazer caso tenha que ir a um jantar qualquer dia.'' Aprendi (as regras de etiqueta), mas uso quando quero. Quando não quero, não uso e também não julgo os outros.
Manu - Mas os livros de etiqueta são bons. Uma vez abri um porque o avô de um amigo morreu e eu estava muito aflita, querendo fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Encontrei no livro exatamente o que acontecia no meu coração: ''Ou vá ao velório ou escreva um cartão dizendo o que está sentindo: que está pensando muito nessa pessoa, que não tem o que dizer, nem o que fazer, mas que estará lá para o amigo.'' Então, acho que tem uma coisa de bom senso nas regras.
Claudia - Brinco dizendo que, hoje, a etiqueta tem três pilares: o bom senso, a naturalidade e a afetividade.


Fumaça e bronzeado em baixa

Fumar era considerado elegante, e hoje não é mais.
Maria - Acho que o cigarro foi ficando deselegante porque começaram a perceber todos os males que causa. Mas essa coisa de era elegante, mas não é mais é muito relativa
Claudia - O charuto já foi considerado elegante, e hoje é uma coisa horrorosa.
Manu - Acho que é a moda da saúde
Claudia - Ah, o bronzeado era considerado elegante e hoje não é mais.
Maria - Verdade! E está na mesma categoria do cigarro, não é mais bacana por causa da saúde.

Cuidados com e-mail e celular

Quando o uso do e-mail cai na deselegância?
Claudia - Quando é invasivo.
Manu - Quando extrapola.
Maria - O abuso destrói qualquer elegância.
E o celular?
Maria - Tem uma frase essencial na era do celular que é: ''Oi, você pode falar?''
Manu - Quando ligo, sempre pergunto: ''Tem um minutinho?''
Claudia - No entanto, não é deselegante desligar o celular de vez em quando. Pelo contrário.

Gafes do dia-a-dia

Qual a gafe mais corriqueira hoje em dia?
Claudia - O celular é um grande vilão. As pessoas pisam na bola direto: gritam ao falar, atendem chamadas em qualquer situação.
Maria - Interrompem reuniões.
Manu - Acho uma grande indelicadeza dos dias de hoje o hábito que as pessoas têm de medir as outras com os olhos, de olhar os outros dos pés à cabeça. Isso sem falar de como as pessoas falam umas das outras, sobre o que elas têm, sobre o que estão fazendo. Para mim, isso é um absurdo. Não sei se foi Sócrates que disse algo como: ''Os grandes falam de idéias, os médios falam de acontecimentos, e os pequenos falam de pessoas.''

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