Computador serve para matar saudades da África
Os sete angolanos cegos que vivem hoje no Instituto Paranaense de Cegos (IPC) têm um cotidiano parecido com o de qualquer estudante brasileiro, até um pouco mais agitado que muitos curitibanos. Acordo bem cedo, às seis horas da manhã e depois vou estudar na escola estadual Rio Branco. Depois temos o almoço e às 13 horas vamos para as aulas no colégio Osny Macedo. Daí às 17 horas vou um pouco para o computador e depois vou para a academia, explica Prudêncio.
O computador, aliás, é a forma mais utilizada para matar a saudade de mais de seis anos longe de amigos e parentes, que aproveitam softwares que transformam o texto em sons para facilitar a comunicação. Como todos os bolsistas pensam em voltar só após a formatura em algum curso superior, o que pode durar até mais cinco ou dez anos, a conversa diária pela Internet é o que aproxima o grupo dos familiares. Antes era difícil, eu chorava muito de saudades. Mas agora é muito mais fácil e às vezes eles também ligam, afirma o caçula Rui Kelson, que desembarcou em Curitiba com sete anos e hoje, aos 13, sonha em ser advogado.
Ajudar é sempre a primeira justificativa quando os Cantores de Angola falam sobre a escolha do que pretendem estudar em uma faculdade. Quero ajudar o país a se reerguer e os outros deficientes que não puderam vir para cá, diz Francisco Benguela.
Os Cantores de Angola, assim como muitos em Angola, sofreram deficiência visual devido a doenças que ainda atingem muitos na África, como estágios avançados de sarampo ou catarata. O país se preocupou mais com a guerra do que com a saúde ou educação, reflete Wilson, o único que perdeu a visão diretamente devido ao conflito interno do país.
Wilson foi vítima de um dos vários atentados terroristas dos partidos inimigos em Angola. Quando era pequeno, ainda aos quatro anos, recebeu um presente de um homem desconhecido, enquanto brincava com os primos. O homem nos deu uma granada e falou que era um brinquedo. Eu e meus primos ficamos ouvindo o tique-taque e brincando com aquilo. De repente explodiu, lembra. Ele foi atingido nos olhos e os três primos, que receberam maior impacto, não sobreviveram.
Alegria une - Prudêncio afirma que nunca foi tratado diferente, nem na escola ou em qualquer lugar, por ser cego ou estudante vindo de outro continente. Nunca me trataram como um deficiente, aqui o pessoal é muito parecido com o povo de Angola, o brasileiro gosta muito de festa, comenta.
Quando não está estudando, ensaiando ou praticando esportes, Prudêncio gosta de sair no final de semana para boates. É até mais fácil ficar com alguma menina, ela ouve ah, ele é angolano?, e facilita beijar, diverte-se.
Os bolsistas recebem do governo angolano o equivalente a um salário mínimo. Desse valor, metade fica para o IPC e o restante fica para os gastos pessoais de cada um, como lazer, roupas, cosméticos e produtos de higiene.
A semelhança de humor, além do gosto pela música e futebol, fez com que o grupo fizesse amizade muito facilmente. O pessoal do colégio até já ensinou os angolanos a falarem bobagens em português, em troca de alguns dialetos africanos. Garina quer dizer mulher. Madié é cara, Garina bala é mulher bonita, kamba é amigo e zuca é brasileiro. No colégio todo mundo sabe falar isso, asseguram Wilson e Prudêncio.
E, diante de tantas alegrias depois de uma infância tão complicada, hoje o grupo se diverte em Curitiba sem, no entanto, esquecer do objetivo principal. Vou ficar aqui o tempo que for preciso para me formar. Quero ser advogado para ensinar o povo de Angola a conhecer seus direitos, completa Wilson. (C.Y.)





