Entre descascar uma laranja e instalar um programa de computador, qual atividade pode ser considerada a mais simples? A resposta, por mais incrível que isso possa parecer, vai variar de acordo com a faixa etária de quem é questionado. Enquanto os adultos não hesitariam em transformar a laranja em suco em poucos minutos, jovens e adolescentes encarariam a faca e a fruta como uma espécie de quebra-cabeças de alta complexidade, quase insolúvel.
Esta ''inversão de valores'' já pode até ser considerada típica entre a juventude atual. A habilidade motora, tão comum aos jovens de 10 anos atrás, hoje cede espaço à habilidade cognitiva, cada vez mais presente até mesmo entre crianças, ávidas por passar a vida em frente a um computador.
Constatação simples de ser feita é a de que crianças e adolescentes, há alguns bons anos, deixaram as brincadeiras de rua de lado para conversar pelo computador, sendo o amigo virtual um vizinho ou um desconhecido do outro lado do mundo. Em parte, essa nova experiência pode ser explicada por características também inerentes à realidade das grandes cidades, como a violência urbana e as altas cargas horárias a que estão sujeitos os trabalhadores, afastando cada vez mais os pais dos filhos.
Independente do que tem provocado este novo fenômeno, no entanto, o fato é que crianças e adolescentes têm cada vez mais conhecimento do que pode ser considerado uma atividade de alta complexidade, em detrimento de tarefas que, a rigor, exigem quase zero de habilidade, como descascar uma fruta, lavar a louça da janta ou pasmem encher de água a forma de gelo. ''Nem me arrisco a lavar pratos. Acho chato, não sei fazer direito. Demoro muito e não fica bem lavado'', conta a estudante de Londrina, Bárbara Martins, 13 anos.
Tudo bem, tudo bem. Lavar louça não é lá um exercício prazeroso, característica que, por si só, já seria o suficiente para merecer o desprezo de adolescentes, tipicamente egoístas. Mas fazer gelo? ''Não sei. Derrubo a água, sei lá'', tenta explicar o operador de geração de caracteres Thiago Parmezani Mafra, 19 anos. E macarrão instantâneo? ''Uma vez eu queimei. Esqueci de tirar do fogo'', confessa o estudante Gabriel Bernardo da Silva, 16 anos.
Em uma conversa rápida com qualquer pessoa com idade entre 8 e 20 anos, fica fácil encontrar exemplos para enumerar a quantidade de habilidades que os jovens não fazem a menor questão de aprender ou realizar. A também estudante Juliana Colpani, 15 anos, adora laranjas. Quando quer saborear a fruta, pede para a avó descascar. ''Já tentei uma vez, mas não consegui. Saiu toda torta, com pedaços da fruta na casca'', descreve.
Já Mariana Engmann, 12 anos, sofre quando tem que ajudar a mãe nas tarefas domésticas. ''Ela me pede para lavar louça, o que eu já não gosto muito. Demoro bastante, mas até faço certo'', conta, admitindo, minutos depois, que só realiza a tarefa mediante suborno. ''Certa vez, tive que oferecer R$ 2 para que ela me ajudasse'', conta a técnica de higiene bucal Stela Maris dos Santos, que também negocia tarefas com o filho Guilherme, de 13. ''Também já tentei lavar louça, mas ficou tudo engordurado. E meu quarto só fica organizado porque minha mãe arruma'', conta. Guilherme, por sinal, só topou dar entrevista depois de obter da mãe e garantia de que a Folha arranjaria um convite para um show de música...
A coisa só muda de figura quando o assunto é tecnologia. Bárbara adora escrever redações no computador, esbanjando habilidade no programa de edição de textos. ''Fica mais rápido e fácil do que no caderno'', conta. Gabriel é motivo de preocupação para as gravadoras: domina a arte de copiar CDs de músicas como poucos. Thiago aquele que não sabe fazer gelo já trabalha como operador de geração de caracteres em uma emissora de TV de Londrina e, só de observar, aprendeu outras atividades difíceis, como operar áudio e realizar tarefas básicas de direção de TV.
Para comprovar a tão cantada habilidade descrita pelos jovens para a tecnologia, a Folha chegou até a propor um desafio para alguns dos jovens entrevistados. À eles, foi oferecido um celular moderno, com tecnologia GSM. A tarefa consistia em encontrar, no menor tempo possível, a maneira de se enviar uma mensagem de texto. Juliana decifrou o enigma em 30 segundos; Bárbara, em tempo semelhante; e Gabriel nem deu tempo para que a reportagem cronometrasse o desafio. ''Não é difícil: é só fuçar'', explica.
A dificuldade para se realizar uma tarefa simples não é a mesma apresentada pelos jovens na hora de admitir que a preguiça é a grande responsável pela inoperância diante de um lápis e de um apontador. Todos admitem tranquilamente o que não sabem fazer e atribuem aos pais e a si próprios a responsabilidade por isso.
Em atividades diárias que não são cumpridas normalmente por eles, os adolescentes não hesitam em recorrer à ajuda do pai ou da mãe. ''Já pedi para a minha mãe abaixar o volume da TV para mim. Estava com preguiça'', confessa Guilherme. ''Trazer copo d'água ou pegar algo para comer na geladeira é normal'', admite Thiago. ''Acho que os pais só fazem tudo isso para a gente porque querem que tenhamos um conforto que não tiveram quando eram novos'', tenta explicar Gabriel.
O consolo para os pais é que, na maior parte dos casos, um dia os filhos também terão uma família para cuidar. No caso de Thiago, fazer filhos também é uma atividade de alta complexidade que ele já domina, e a profecia já se concretizou. Ele e a esposa isto mesmo, esposa têm uma filha de 1 ano, e Thiago já se prepara para o ''pior''. ''Se a minha filha for folgada como eu, eu acho que vou entender e vou saber que vai ser como uma espécie de 'vingança' para os meus pais''.

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